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Filosofia, capitalismo e catástrofe: o devir do colapso ambiental



afinsophia 12/05/2024


José Alcimar de Oliveira*

 

O homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza (Karl Marx).

           

 

  01. Sob o sistema do capital, presidido que é pela férrea lógica do lucro acima da vida, que mais favorece a circulação global de mercadorias do que de pessoas, há pouca margem para adiar o intenso devir da catástrofe global. Para os condutores da locomotiva predatória soa como herético falar em freio de mão para diminuir o ritmo da marcha rumo ao abismo. Pouco importa se a gênese deste ritmo insano é sobrenatural, natural ou social, porque é inegável sua materialidade e suas consequências (seguramente mais perversas sobre a vida das populações que vivem para sobreviver) não podem ser compensadas por nenhuma promessa, seja eterna (para os crentes) ou temporal (para os ateus ou agnósticos). Verdade mesmo é que em 2024, 300 anos depois do nascimento de Immanuel Kant, o coeficiente de cognição do ser social diminui e cede lugar ao mais regressivo obscurantismo.  Mas o devir da natureza, mesmo agredido pela ação do ser social, seguirá seu curso e continuará indiferente à fé (do crente) e à ciência (do sábio ou cientista). A natureza nos antecede e nos sucederá e ao pó voltaremos.

    

             

02. Crítico da tese cartesiana da existência de três substâncias (divina, humana e física), Spinoza (o filósofo que mais fundo desceu na compreensão do ser natural) reconhecia apenas uma substância, indiferentemente denominada de Deus ou Natureza. Deus sive Natura. Para Spinoza, em cujo sistema não há lugar para milagre, dizer Deus é dizer Natureza. Tudo se define pelo reino da necessidade, inclusive a liberdade humana, que mesmo guiada pelos maus afetos, e agir em oposição ao que é, não pode escapar à lei do necessário. Contingência nenhuma está fora da necessidade. Natureza (ou Deus) em Spinoza é constituída por infinitos atributos, e deles malmente conhecemos dois: o pensamento e a extensão, aos quais Descartes denominava de substâncias (res cogitans e res extensa). A bem dizer, tudo que há se inscreve entre os limites do pensar e do ser.

             

 

03. Pensador da unidade, Spinoza confere estatuto natural a Deus e estatuto divino à Natureza. É o mais ambiental entre os filósofos e o mais filósofo entre os pensadores ambientais. Extensão e pensamento (mundo físico e mundo humano) são necessária e indivisivelmente atributos divinos e naturais, porque constitutivos de uma mesma unidade substancial. Em Spinoza, toda agressão à Natureza é agressão a Deus. Todo ódio à Natureza é ódio a Deus. Todo ódio ao pensamento e à extensão é, indiferentemente, ódioa Deus e à Natureza. Para a ética spinozista, “tudo aquilo que apetecemos por estarmos afetados de ódio é desleal e, no âmbito da sociedade civil, injusto”. E ainda: o ato de “compreender é, pois, a virtude absoluta da mente”.

           

 

  04. Não há nada mais anti-spinozista do que o sistema do capital, fonte permanente de ódio a Deus e à Natureza (vistos estes segundo a concepção de Spinoza) e aos seus dois mais conhecidos atributos: pensamento e extensão. Por via do materialismo histórico e dialético, Marx guarda alguma afinidade eletiva com o sistema spinozista ao identificar na produção capitalista o poder descomunal e destrutivo das duas fontes de toda a riqueza: a terra (o mundo físico) e o homem (o mundo da ação e do pensamento). O sistema spinozista não é contraditório às teses do ecossocialismo. Assim como no Prefácio de 1922 à obra História e consciência de classe Lukács pensava em dar corpo à proposta de Lênin de constituir “uma espécie de sociedade dos amigos materialistas da dialética hegeliana”, por que não, 102 anos depois, no ano centenário da morte do mais militante intelectual marxista, não defender uma frente de epistemologia ambiental constituída pelos amigos marxistas do grande Baruch Spinoza?    

           

 

  05. Predação da natureza, colapso ambiental e tragédia humana e social inapartáveis do sociometabolismo  capitalista, com seu insustentável padrão de produção e consumo. Quanto ao Brasil e a fraudulenta imagem vendida por sua classe dominante, de país “abençoado por Deus e bonito por natureza”, o que hoje ocorre no Rio Grande do Sul joga cinzas nessa tintura ideológica. A tragédia que se abate sobre nossos irmãos gaúchos não é natural e menos ainda acidental. É obra da cultura da morte e da metódica insanidade de um progresso suicidário. Não estamos diante de um evento local ou regional, mas das consequências trágicas e perversas de um modelo global de destruição da vida.  

           

 

  06. O velho Hegel há muito nos ensinou que a verdade é o todo, o que sempre exige penoso trabalho reflexivo e paciência histórica para tecer conceitos. Cognição e crítica não combinam com pressa, fiel aliada da miséria intelectual. Quem não consegue ver o particular como manifestação verdadeira do todo padece de miopia cognitiva, não raro incurável, sobretudo no caso de consciências envenenadas pelas falsas certezas, a cada dia mais disponíveis e atrativas, e a operar em ritmo industrial no vasto e raso mundo das redes digitais. Se visão e teoria têm a mesma origem semântica, trata-se de compreender e ver no particular a venalidade da universal e criminosa intervenção capitalista.

           

 

  07. Segundo Walter Benjamin (1892-1940): “toda a natureza por-se-ia em lamento se lhe fosse concedido o dom da linguagem”. Aos olhos do capital, tanto quanto às suas mãos invisíveis (mas sempre sujas), só resta desabrigo para a Natureza. Quem assinará o contrato natural proposto por Michel Serres (1930-2019)? O negacionismo, o terraplanismo? Que a entropia seja inerente ao devir da Natureza é inegável.Afinal, o morrer é da ordem ontológica do nascer. Mas refratário e hostil ao bom senso (proclamado por Descartes como a coisa mais bem dividida do mundo), o sistema do capital imprimiu progressãoinstrumental e geométrica à entropia natural.Geneticamente ecocida, o capitalismo mata a natureza, mas “não morrerá de morte natural”, como sentenciou Walter Benjamin. Em Spinoza, contudo (que nunca conspirou contra Benjamin), a morte do capitalismo, seja natural ou social, está necessariamente inscrita na Natureza.

 

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, base da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamentodos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE). Em Manaus, AM, aos 12 de maio de 2024, no oitavo ano da repetição como escárnio do tenebroso primeiro de abril de 1964.

 


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