Felicidade e interesses

Respeitável e bem formado sociólogo lembra-me sempre dos interesses que subjazem às palavras e ações dos homens. Ele mesmo me esclarece - e ensina: sem levarmos em conta os cálculos (consciente ou inconscientemente percebidos), que antecedem os dizeres e fazeres humanos, será difícil compreender a realidade na qual estamos inseridos. Atento à sempre oportuna lição, sou levado a cada dia mais buscar a compreensão e a interpretação dos acontecimentos no que se esconde por detrás dos protagonistas. Aqueles sentimentos e motivos mais profundos, que a aparência teima em manter ocultos. Alguns diriam: ler nas entrelinhas; ouvir o que aos ouvidos não chega. Sou, assim, levado a ler e reler o mesmo texto. Repetir a audiência de afirmativas às vezes reiteradas, às vezes contraditórias, mesmo se o que as proferiu é o mesmo. Isso me tem proporcionado, igualmente, assistir a espetáculo a um só tempo alentador e lamentável. Alenta-me a capacidade de recuo, de revisão e correção de pontos de vista, de posições políticas. Também me conforta encontrar em muitas pessoas a energia necessária ao arrependimento e à mudança de visão do mundo. Para o bem e para o mal. Lamentável é detectar em muitos dos arrependidos, os interesses menos elogiáveis como pano de fundo de suas exortações e comentários. Fazendo do próprio umbigo o centro do universo, pouco se lhes dá a exclusão da maioria, quando tratam dos benefícios que reivindicam para si mesmos. Por maior que seja sua boa vontade, por mais ostensiva seja sua indignação, entendem a justiça social como algo que, se atender às suas demandas pessoais, estará de bom tamanho. De minha parte, repito: impossível ser feliz em meio a tantos infelizes!

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