Faustos modernos

Curiosa a manifestação da organização dialética do Universo. Disso nos terá falado Glauber Rocha, com seu Deus e o diabo na terra do sol. o cineasta baiano na pele de Christopher Marlowe tropical. Tudo pelas artes de um tal Doutor que para conquistar e manter o poder e o conhecimento, fez um pacto com Mefistófeles. Ninguém menos que o Capeta travestido. Mais de 4 séculos se passaram, sem que um e outro - Fausto e Mefistófeles - fossem definitivamente mortos. Morreram, sim, o compilador alemão Johann Faustus, Marlowe e outros que trataram do assunto ou tentaram reproduzir a história recolhida da cultura alemã. Restam alguns, porém, nestes tempos mais para Mefistófeles que para Deus. No máximo, um deus enviesado provoca a suspeita de ter sido Lúcifer empurrado por outro, uma terceira entidade à qual se destinava o ódio do deus-maior. O Renegado foi ter em mundo inferior, onde recebe, entre dobrados saídos da trombeta assustadora, os produtos que Mefistófeles e Fausto imaginam, projetam e criam, na tarefa de tornar populosos os cemitérios, o reino onde Lúcifer reina indiscutível, incontestado, quando não aplaudido. É certo que outros Marlowe e Gláuber um dia contarão a crônica destes infaustos dias. Quando, ainda não se sabe. Mas que eles serão contados, quem duvidaria? Quantos de nós gostaríamos de ouvir as narrativas que restarem, quando os protagonistas não forem mais que restos desprezados, tanto mais longa a vida, na medida da purgação de seus pactos assombrosos. E assassinos...

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