Fatos e interpretação

Os fatos existem por eles mesmos, desde que o homem os produza ou se manifestem as forças da natureza. Sem que o próprio animal pretensamente dotado de inteligência seja totalmente excluído da participação nesses últimos. No mínimo, a interpretação capaz de prevenir a repetição ou simplesmente alterar o mundo real. Os fatos como produto da ação humana, em síntese. A percepção do homem, no entanto, dá significado aos fenômenos, ao mesmo tempo em que, se for realmente inteligente, tem a oportunidade de mudar-se por dentro. Neste caso, precisa pôr sua consciência aberta à análise criteriosa da realidade, sempre – e isso não é invenção da esquerda ou da direita – influenciado por amplo conjunto de outros fenômenos invisíveis, nem por isso ausentes. Refiro-me nesta passagem aos valores pouco a pouco adquiridos, construídos, cultuados, tanto quanto à experiência pessoal de cada um. Nesse trajeto, acumulam-se triunfos e frustrações, tristezas e alegrias, desejos e rejeição. Enfim, a vida. Vêm-me à cabeça, no momento em que são chorados (há quem festeje o fato) 250 mil mortos pela covid-19, a percepção inadequada de fenômenos devidos à ação humana, incompreensivelmente vistos como fatos naturais. Para tanto, buscam fundamentar na Lei sua interpretação enviesada. Neste particular, invertem o sentido de alguns dispositivos até constitucionais, resultado de olhar parcial, capaz de enxergar nos textos consultados apenas parte do que está escrito. É bem o caso do artigo 3° da Constituição Federal. Lá, onde são fixados os objetivos da República, é incluída a redução das DESIGUALDADES SOCIAIS E REGIONAIS . Algo que aos que sabem ler parece cristalino, uma coisa tendo a ver com as outras, como determina qualquer interpretação minimamente honesta. Daí cair por terra qualquer pretenso argumento baseado em números e apenas neles. Afirmar que em 40 anos a produção do Amazonas cresceu, e em relação a São Paulo saiu de 7 para 1,8 vezes, significa rigorosamente nada. Dispensa, até, ir além da observação in loco. A miséria, a fome, a violência, o desemprego agridem o menos atento olhar. Se formos aos números, mesmo partindo da comparação que dá base às análises equivocadas, talvez encontremos as causas dos males constatáveis a olho nu. Buscando ler tudo o que diz a Constituição, sem interromper a leitura no meio da frase. Ou seja, considerar os números, sim; sem, porém, deixa-los pela metade.

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