Fake-news e tempo


A maior boa vontade não ajuda a formular juízo generoso a respeito da debandada do MDB e DEM da área do Centrão. A melhor hipótese seria imaginar deputados e senadores dessas duas legendas preocupados em distanciar sua imagem do atual governo. Tantas e tão disparatadas têm sido as (in)ações oficiais, que se torna preferível abrir mão das benesses resultantes da proximidade com o Planalto. Outra hipótese poderia induzir à expectativa de que as investigações policiais e as providências dos órgãos judiciários concorrem para admitir a disposição de Rodrigo Maia pôr em marcha alguma das dezenas de proposta de impeachment de molho em suas gavetas.

Se até em tempos de pandemia sobem de preço os produtos de primeira necessidade por que imaginar que mandatos, opiniões, discursos enraivecidos ficariam de fora desse trágico mercado? A valorização desses produtos pode elevar os preços no momento oportuno. E a grossa bandalheira feita com a grana que combateria o mal não deixa margem a tolo otimismo.

Já está provada uma coisa, e disso sabem todos os parlamentares, mesmo os que engrossaram as fileiras do PSL, sob cuja bandeira se abrigou o então candidato Jair Messias Bolsonaro: a nova política nada tem de nova e nada tem a ver com Política. O toma-lá-dá-cá é o mesmo de antes; a corrupção também. A novidade, por enquanto, consiste na proximidade inédita de membros do governo ou seus aliados com organizações empenhadas em destruir o Estado democrático de Direito. Em sã consciência, não há um só brasileiro incapaz de relacionar a proibição de manter o controle das armas e munições na área do Exército com a organização e ação de grupos paramilitares. Também se tornou explícito o patriotismo zombeteiro, que reverencia os símbolos de outro Estado nacional e aparenta submissão ao seu governante. A desmontagem do aparelho de Estado brasileiro, assim, torna fácil de compreender a causa a que serve.

Se há alguma coisa que se possa dizer em favor do atual governo, não é algo que traga orgulho a qualquer brasileiro: ninguém, antes de Bolsonaro, avançou tanto em práticas que se pensava definitivamente riscadas do nosso cotidiano. A ausência forçada do Presidente, recolhido pela gripezinha que o acometeu, trouxe essa certeza: a crise é ele.

Organizações governamentais criadas e estimuladas a combater a corrupção, poderosas organizações produtivas e financeiras e órgãos de controle dos atos administrativos jamais foram tão enxovalhados quanto têm sido agora. Mesmo a Operação Lava Jato, onde a parcela ingênua ou desonesta apostou todas as fichas tem reveladas suas inspirações e desmoralizados os supostos arautos da austeridade. Se, antes, a tentativa de um dos mais destacados operadores dessa lavagem não o fez apropriar-se de uma montanha de dinheiro, agora as coisas começam a se tornar claríssimas. Deltan Dalagnoll e seu chefe, hoje desafeto do Presidente, estão com suas vísceras morais expostas. Como eles, há dezenas de outros que, beneficiários da onda que ajudaram a agitar, deixaram o barco. Ainda se está por saber quais suas reais intenções, neste momento em que a mentira passa por verdade e desafia, ignora e agride a população em torno.

Marcou uma geração a frase de um Presidente norte-americano, aplicável – esta, sim! – à nossa realidade: é possível enganar alguns por longo tempo; enganar todos por pouco tempo; impossível é enganar todos por todo o tempo.

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