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Fábula do tempo

Naquele dia, o sol se pondo e a escuridão ameaçando cobrir todos e tudo, o homem sentia-se abastado. A fome, daquele dia e dos que o antecederam desde o nascimento, fora totalmente saciada. Aquela seria uma noite diferente de todas as outras que ele vivera, nos seus mais de 65 anos de tão carente vida. Não a carência de que reclamavam tantas de suas vítimas. Sua condição, de tão destituída de humanidade, em nada o punha à mesma altura dos que ele matou, ajudou a matar ou espera ver mortos. Também não lhe faltava a consciência do risco de não cumprir a missão a que dedicara sua deletéria vida. Nem ninguém dissesse isso para ele. A escuridão de seu cérebro oco, acaso ele o tivesse, o faria acreditar que o outro falava grego. Ele fora longe demais. Sempre caminhando à margem da estrada, onde a polícia e os defensores das comunidades raramente levam a melhor. De assalto em assalto, acumulava-se o número de mortos que ele produzira. Naquele crepúsculo, porém, ele se cria suficientemente farto. Podia festejar a submissão de muitos dos que a ele entregavam tudo, inclusive a própria dignidade. Se não matara ainda todos os que não cansava de ameaçar, pelo menos boa parte deles ele tinha abatido para sempre. Os do seu lado ele sabia também mortos, se é verdade que sem dignidade não se pode falar de Vida. Neste caso, a sepultura lhes era comum. Por isso, agradeceria, se fosse este um hábito que ele e os iguais a ele praticam. Recusou a importância oferecida. Era pequena demais para comparar-se ao que os mais recentes assaltos produziram. A safra fora abundante, por que sujar ainda mais as mãos já irremediavelmente sujas, por tão pouco?

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