Expectativas

A brincadeira do Presidente Jair Bolsonaro está indo longe demais. Mesmo afastado do gabinete onde deveriam ser tratadas as coisas sérias deste país, ele mantém conduta que, sobre ser absolutamente irresponsável, pode trazer consequências funestas, não somente para ele. Se resultassem de sua irreverência mal dirigida e do exemplo nocivo prejuízos apenas para ele, qualquer crítica ao seu comportamento seria intromissão indevida. Não é o caso, porém. Mesmo que se reconheça a confissão feita mal instalado no Palácio do Planalto, de sua incapacidade para governar um país de mais de 210 milhões de habitantes. Até certo ponto, muitas das ações e movimentos do Presidente devem ser entendidas como cumprimento de suas promessas de campanha. Há, portanto, certa coerência, quando ele dá nenhuma atenção às vidas que sua leviandade põe em risco, desafiando mais que o bom senso, as próprias evidências científicas. Pode-se até levantar a suspeita de que ele espera ver alcançado o quantitativo que anunciou e deseja de 30 mil mortos, como condição para fazer o Brasil feliz. Não foi um oposicionista (até porque não se sabe da existência de uma oposição que mereça este nome, principalmente nesta trágica fase de nossa História) quem fixou esse número. Nem é possível atribuir aos meios de comunicação essa meta. Poderia parecer conspiracionismo imaginar realizado o sonho presidencial, quando as perdas em função do covid -19 chegarem às três mil dezenas de vidas perdidas. Diante do anúncio prévio, a hipótese passa a ter validade. O que a sociedade e as instituições brasileiras impediram-no de fazer, a pandemia se encarrega de realizar.

Não faltou, durante a campanha eleitoral, quem apontasse o que seria o Brasil, caso o ex-militar excluído das forças armadas chegasse ao poder. Seu currículo, na caserna e no Parlamento, dava pistas de como se comportaria, uma vez posto no topo da hierarquia nacional. Cada dia se fortalece o que deixou de ser suspeita, porque fartamente constatado.

A perplexidade de alguns agora se volta para o grau, não mais de tolerância, mas de conformação e acomodação das lideranças militares, à situação. Neste caso, a saída do general Santos Cruz do círculo mais restrito do poder não pode ser esquecida. Não que se deseje a menor agressão à Constituição. É justo exigir, no entanto, uma interferência destinada a repor o presidencialismo amarrotado, como recomenda a Constituição que a caserna insiste em dizer superior ao voluntarismo de quem quer que seja.

Se houve algum momento em que as lideranças militares podem mostrar a legitimidade de seus pronunciamentos, a hora é esta. Não seguindo o caminho sempre atraente de anular o poder civil, como em outras ocasiões se verificou. Mas convencendo o ex-colega por eles mesmos excluído - e o Presidente que teima em não apenas ignorar os deveres de seu posto, como agredir toda a sociedade - a abandonar sua cadeira. Até porque o respeito à Lei Maior porá no topo da hierarquia da República um dos seus. Tanto quanto qualquer outro cidadão, sujeito às regras que a Constituição prescreve. Seria o que de melhor os brasileiros esperariam, nesta fase de péssimas expectativas.

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