Exercício de futurologia

No mínimo verossímil, texto publicado em congressoemfoco, assinado por Hélio Doyle traz considerações pertinentes a respeito do cenário político nacional. Uma espécie de trajetória provável dos acontecimentos, até as eleições presidenciais de 2022. Em resumo, o articulista aprecia a mobilização das forças políticas, condicionadas a esta altura pela polarização entre Lula e o atual Presidente da República. Na análise do jornalista, a polarização desagrada aos direitistas e conservadores, tanto quanto aos empresários e à maioria dos militares. Esses segmentos não veriam com bons olhos a reeleição do atual Presidente, menos ainda a volta de Lula ao poder. A direita estaria dando sinais de que não toleraria um novo período conduzido pelo pai dos zeros à esquerda, com a mesma força de rejeição que os leva a desejar o surgimento de uma terceira candidatura. Como os que se intitulam centristas parecem pecar dos mesmos pecados atribuídos aos que lhes não são simpáticos, seria necessário seguir roteiro apenas insinuado no texto. Remover o atual Presidente, pelo impeachment, na quase certa impossibilidade de renúncia, passa a ser hipótese a que Doyle parece dar apoio. Caso o Presidente mantenha sua candidatura, os segmentos mencionados pelo articulista veem remota a possibilidade de vitória dos que rejeitam Lula. A vitória deste, todavia, poderia desencadear a situação de caos que Hélio Doyle dá como provável, pela recusa do derrotado em admitir resultado diferente do que deseja. Há, no texto, a insinuação de que entraríamos em convulsão social (expressão já usada pelo Presidente), com conflitos violentos ganhando as ruas do país. Isso provocaria a intervenção das Forças Armadas, para conter a força das milícias e policiais, como se sabe o grosso do "meu exército" tantas vezes proclamado e saudado. Lula, a despeito dos benefícios com que aquinhoou boa parte do empresariado e das elites, inclusive as forças armadas, vê-se rejeitado menos por esses mesmos, mas pela incerta orientação que daria a um novo governo, depois das vicissitudes por que passou. Além disso, Doyle pensa que certo setor das Forças Armadas poderia apoiar Lula, na tentativa de fazê-lo confiável perante os quartéis. Talvez aqui Doyle esteja dando ouvidos à proclamação de alguns que se declaram de esquerda, qual seja a confecção de nova carta ao povo brasileiro. Nesta, a ratificação das promessas que removeram as pedras que adiaram a chegada do ex-operário Luís Inácio Lula da Silva ao Planalto. Nada menos que uma nova carta de rendição, segundo penso.

Considero verossímil a hipótese levantada no texto de Hélio Doyle. Vejo algumas dificuldades, todavia, em leva-la a cabo. A primeira delas diz respeito ao grau de comprometimento das próprias Forças Armadas em relação ao governo atual. Acostumada ao papel de moderadora, embora à margem da Constituição, a caserna tem dado mostra de que esse é sentimento muito arraigado, dificilmente superado sem que outras compensações lhe sejam oferecidas. De outro lado, a ocupação de boa parte do território administrado pela União na máquina administrativa torna mais difícil a remoção do contingente fardado que exagera no conceito de hierarquia e obediência. Como se o País fosse um imenso quartel. Da parte dos simpatizantes do atual Presidente, não deixariam levar-lhes os dedos, cedendo os anéis para tanto. Ficariam livres, na repetição de conhecidos acordões, se garantida a distância das leis, dos tribunais, da polícia e das penitenciárias. Os zeros à esquerda e seu círculo de amigos, em primeiro lugar. Do lado de Lula é difícil imaginar a renúncia a um posto na administração, em especial quanto aos que pagaram caro por sua militância, sendo que alguns foram vítimas da ação de gente como Sérgio Moro et caterva.

De qualquer maneira, para que tudo corra como Doyle prevê, seria preciso que o vice-Presidente Hamilton Mourão fosse substancialmente diferente de seu atual superior. Não é o caso. Se os segmentos apontados no texto como interessados na remoção do concorrente do vírus pensam e desejam como diz o jornalista, é difícil ajusta-los a quem ganharia o mandato, a esta altura dos acontecimentos.

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