ESTUDOS DE HISTÓRIAREGISTROS HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO E VIDA DO POVO HEBREU/JUDEU-SEQUÊNCIA GENEALÓGIC

Orlando Sampaio Silva


- V P A R T E

A S D O Z E T R I B O S - A V I D A D O S J U D E U S N O E G I T O - A E S C R A V I D Ã O

Foi logo após se instalarem na terra que lhes foi destinada, que os filhos de Jacó fundaram as doze tribos, inicialmente formadas, cada uma, pelo fundador com sua família nuclear, aos quais se somaram os demais parentes consanguíneos e afins, no âmbito de cada família e de cada tribo. Nesta época eles gozavam da proteção de José, o poderoso administrador. As 12 tribos foram: (1) Rúben, (2) Simeão, (3) Levi, (4) Judá, (5) Dã, (6) Naftali, (7) Gade, (8) Aser, (9) Isaacar, (10) Zebulom, (11) Benjamin, e a décima segunda tribo que foi organizada pelos filhos de José, Manassés e Efraim (12). A cada tribo foi atribuída uma função social em meio ao povo hebreu em formação. O pai dos instituidores das 12 tribos, Jacó, já na velhice, acompanhou o processo de surgimento dessas tribos sob a liderança de seus filhos. José, como se encontrava na alta administração do reino do Egito, como Governador, protegeu sua parentela, mas não participou da organização da que seria a sua tribo - 12 -. Essa missão foi exercitada exclusivamente por seus filhos Efraim e Manassés, cuja tribo (como já foi visto) dividida em duas subtribos ou bandas, tendo cada banda sido dirigida por cada um deles. Aos chefes tribais fundadores de cada tribo foram oferecidas pelos membros das tribos as honrarias decorrentes de suas posições de grande prestígio, poder e liderança. Tendo como núcleos originários as famílias dos instituidores das Tribos de Israel, em cada tribo foi formada uma descendência familiar, uma linhagem de parentesco, as quais foram fortalecidas por vínculos, lealdades e fidelidades tribais e dinásticas. Séculos e milênios depois, ainda era (é?) possível, em muitos casos, os judeus se sentirem integrantes ou descendentes desta ou daquela tribo.

Como já foi dito acima com estas mesmas palavras, Jacó ainda saiu do Egito, tendo nessa viagem ido à Mesopotâmia, onde viveram seus antepassados até Abrahão, seu avô. Na volta da Mesopotâmia, foi para Canaã. Foi aí que Deus lhe disse que ele passaria a chamar-se Israel. Então, seus filhos, inclusive José (o vizir), foram buscá-lo de volta ao Egito, e trouxeram o patriarca transportado em carruagens egípcias com conforto e honrarias.

Os judeus viveram no Egito durante cerca de 400 anos, ao longo dos quais o povo cresceu a partir dos setenta imigrantes iniciais, constituindo uma imensa população. Esse crescimento populacional ocorreu em decorrência de hipotéticos e possíveis casamentos endogâmicos ou intratribais (ou seja, no interior de cada grupo tribal), e, de uniões exogâmicas intertribais (entre pessoas de diferentes tribos). As tribos podem se ter organizado, em muitos casos, com estruturas clânicas, em outros casos, em siblings ou sibs, e, em outras situações, em metades ou bandas exogâmicas. As uniões endogâmicas, mas, também, em alguns casos, as exogâmicas (sendo que nestas, nas estruturas de metades, e nas de clans exogâmicos), ocorreriam entre primos integrantes das doze tribos, primos cruzados; podem ter-se verificado casamentos entre primos paralelos endogâmicos (incestos?) e também, podem ter ocorrido outras formas de casamentos endogâmicos e exogâmicos, tais como o sororato, o levirato e o avuncular, e mesmo relações incestuosas, ao lado da efetivação de concubinatos; prováveis uniões exogâmicas interétnicas (entre pessoas integrantes de dois povos), principalmente, entre judeus e egípcios, em relações reprodutivas. Famílias poligínicas foram formalizadas. Assim, mediante essas possibilidades hipotéticas (já que não existem provas materiais), a população judaica tomou forma, tornou-se volumosa em meio a outro povo, o egípcio, sendo este o acolhedor/dominador.

Ao longo da vida no Egito, estabeleceu-se nas tribos uma política, ora de fraterna colaboração, ora de oposição. As funções sociais específicas atribuídas pelos irmãos a cada tribo, logo de início, foi um sistema organizativo racional que propiciou ao povo condições adequadas de vida, nesta fase instauradora (e depois, também). Os filhos de Jacó se tornaram poderosos chefes tribais. Trabalhavam, produziam, comercializavam suas produções. Uma população constituída principalmente de pastores, em uma economia caracterizada pelo pastoreio. Eram protegidos pelo Poder, no tempo em que o irmão José ponteava.

No início, os fundadores das 12 tribos e seus familiares falavam a língua cananeia (é possível, também, a língua de Abraão, o sumeriano, pelo menos pelos mais velhos). Os membros originários das tribos haviam nascido e vivido durante muitos anos em Canaã. Porém, com o passar do tempo, no Egito, surgiram novas gerações no convívio com os egípcios, e o inevitável aconteceu: todos foram sendo aculturados em meio ao povo receptor, inclusivo. Com a escravidão, que durou centenas de anos, efetivou-se a proibição de crenças religiosas que não fossem as do povo hegemônico e, os escravizados passaram a comunicar-se, publicamente, com exclusividade, na língua do dominador, a língua egípcia. Foram proibidos de falar outra língua. Note-se que a língua hebraica viria a ser constituída mais tarde, quando os Hebreus-Judeus, depois da fuga da escravidão no Egito, passaram a viver, primeiro, durante quarenta anos, no percurso demandando Canaã, e, depois, na Terra Prometida.

As tribos se identificavam pelos nomes de seus instituidores e criaram identidades coletivas próprias. Elas foram as células fundantes do povo judeu e, depois de séculos, mesmo com a escravidão sob a qual viveu este povo, as 12 Tribos sobreviveram, cada qual com seu avultado número de membros. Com o Êxodo, e tendo vivido durante 40 anos no transcurso por terras desérticas e semidesérticas, foram para Canaã, onde, após a conquista, ocuparam os diversos espaços do território, conforme veremos.

As tribos cresceram ao longo dos anos formando populações tribais numerosas; porém, todas, em seu conjunto, mantendo uma unidade identitária enquanto povo, devido à irmandade dos chefes tribais fundadores, à reverência à memória dos seus antepassados patriarcas, à tradição e, à crença monoteísta (quanto a esta, faremos considerações específicas abaixo). Esta unidade, enquanto povo judeu, no grupamento das diversas populações tribais, foi assegurada, também, pelos laços de parentesco e pela ação da liderança dos chefes tribais. Estes fatores asseguravam a coesão deste povo em formação, com identidade social própria, em meio a outro povo, os egípcios, dos quais se distinguiam enquanto povo. A escravidão, no entanto, foi a marca social definitiva a assinalar a distinção fundamental entre dominados e dominadores, conforme veremos.

Mesmo com a unidade étnica preservada e encontrando-se vivendo em uma conjuntura de dominação-subordinação, ocorreram, também, rivalidades e desavenças entre as tribos.

Assim, de conformidade com o Velho Testamento - do qual muitas narrativas, neste texto, encontram-se, em síntese, reveladas ou comentadas ou analisadas e criticadas ou interpretadas -, foi, nestes possíveis quatrocentos anos, no Egito, que os hebreus-judeus-israelitas, distribuídos e integrados nas 12 tribos, se constituíram enquanto etnia, enquanto povo, que veio a atravessar os milênios. No passado, antes da fase egípcia, existiram apenas as famílias dos patriarcas na linhagem de descendências. Lembrar a missão fundadora atribuída por Deus a Abraão. Os poucos integrantes da linhagem dos patriarcas, descendentes de Abraão, vivendo em Canaã, então, integrados em torno de Jacó, formavam a parentela que, com raríssimas exceções, emigrou para o Egito. Estes emigrantes em seu conjunto eram constituídos por 70 pessoas.

Jacó morreu, aos 147 anos de idade, no Egito, quando o povo das doze tribos ainda vivia em liberdade, e, a seu pedido, seus restos mortais foram levados pelos filhos, inclusive José, para Hebrom, em Canaã, onde enterraram-no na caverna de Machpelá, próximo do túmulo de seu avô Abraão. Após o ritual de enterramento, os filhos de Jacó retornaram ao Egito. Raquel havia sido enterrada por seu esposo Jacó, próximo de Belém, em Canaã. Sara, esposa de Abraão, seu filho Isaque, Rebeca, esposa deste, e Lea ou Lia, segunda esposa de Jacó e irmã de Raquel, foram todos sepultados na mesma área em que foram inumados Abraão e Jacó, na caverna (ou campo) de Machpelá, em Hebrom, Canaã, em terra na qual, presentemente, vivem palestinos.

Jacó ou Israel, sendo o pai dos fundadores das 12 tribos originárias, pode ser homenageado com título de “Pai do Estado de Israel”.

Conforme vimos acima, foi a partir da formação das tribos pelos bisnetos de Abraão, que teve início a constituição de uma grande coletividade de judeus, nos primeiros tempos, centrados na crença e no culto a um deus único (isto mudou, depois!), diferente do que ocorria nesse tempo em que as religiões eram politeístas, no Egito e entre os outros povos da região. Quanto a esta última característica, há uma exceção, a do povo árabe, que, também, era (é) monoteísta, e que, ao tempo, também se encontrava em formação enquanto um “povo abraâmico”. A crença monoteísta dos judeus foi o principal diferenciador identitário deste povo em face de outros povos da região do, hoje, chamado Oriente Médio, tais como, por exemplos, os Sumérios da Mesopotâmia (o povo originário de Abraão), os Caldeus (também do sul da Mesopotâmia) e os Cananeus, de Canaã, que eram todos povos praticantes de crenças politeístas.

A célula mater do povo judeu estava sendo forjada. Estes fatos e estas circunstâncias acima registrados são os prolegômenos próximos da constituição do povo Hebreu ou Judeu. A religião hebraica, enquanto tal, em sua estrutura e fundamentação codificada, apenas surgiria muito depois, com Moisés.

À época da escravidão dos judeus, ocorreu uma profunda transformação revolucionária introduzida no Egito pelo faraó Aquenáton ou Amenhotep IV, na XVIII dinastia. Aquenáton, que era filho de Amenófis II e, casado com Nefertiti, eliminou os deuses do panteón politeista egípcio (mais de 1.000) e impôs a crença no / e o culto ao deus único, Atón, o Sol com seus raios que se dirigiam para baixo, em direção à Terra (ou a Aquenáton e Nefertiti, que se julgavam participantes da deidade!). O Deus Sol criara todos. Com esta revolução na ideologia religiosa, os deuses antropomorfos e zoomorfos egípcios foram todos substituídos pelo Sol. Aquenáton reinou entre 1.352 e 1.338 a. C. Aquenáton transferiu a capital do reino de Tabas para uma nova cidade, que mandou construir à margem direita do Rio Nilo, a qual denominou Aquetaton. Ainda hoje existem ruínas desta cidade, no Egito. É provável que os judeus, escravos, tenham participado da construção de Aquetaton. Com o passar do tempo, o poder do faraó enfraqueceu, em face da resistência no reino contra a sua revolução dos costumes religiosos. Com a morte de Aquenáton, seu filho Tutancâmon tornou-se faraó, e restaurou o politeísmo tradicional no Egito,

O modelo bíblico/histórico da formação/constituição do povo judeu tem alguns marcos simbólicos, tais sejam: patriarcas - 12 tribos - escravidão no Egito - êxodo - religião - conquista territorial - unificaçãojuízes / reis - divisão imperial - submissões a povos dominadores - exílios/diáspora.

A ESCRAVIDÃO

A morte de José trouxe aos hebreus mudanças cruciais e dramáticas em suas existências como povo que vivia no território do Egito. Extinta com a morte de José a proteção que este homem poderoso lhes oferecia, e, não tendo o novo rei nenhum compromisso com a proteção dos hebreus, estes passaram a ser malvistos pelo novo faraó e, em consequência, perderam os privilégios de que desfrutavam na situação anterior. Vieram, então, a viver sob forte pressão dos egípcios, que lhes impunham a realização de trabalhos muito pesados. O povo dominador passou a temer os hóspedes, cuja população crescia de forma constante. Assim, os israelitas perderam sua liberdade na maneira como viviam em sua condição de pastores seminômades. Inseridos nessa situação, logo foram levados definitivamente à condição de escravos dos egípcios. Nessa submissão, foram oprimidos nas tarefas mais estafantes e brutais entre as quais, como trabalhadores na agricultura, na fabricação de tijolos e nas construções de cidades, tais como Pitom e Ramessés (sendo que esta, na região que tinha o mesmo nome).

Viveram na escravidão durante séculos nesta terra alheia. Com a escravidão, os judeus foram proibidos de manter a sua crença monoteísta, e, em consequência, foram obrigados a aceitar e a praticar a religião politeísta egípcia. Foram também proibidos de falar outra língua que não o egípcio. Muitos anos se passaram e esta situação de dominação/subordinação provocou mudanças essenciais na vida material e espiritual desse povo.

E assim os judeus viveram no cativeiro, no Egito, durante muitos e muitos anos, entre 1.700 e 1.300 a. C. (datas aproximativas).


[CONTINUA. Próximo capítulo: “Moisés”]

G-mail: osavlis@gmail.com

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