Estudos de História–U.R.S.S. (cont.)-A- 2

Orlando SAMPAIO SILVA

No embasamento teórico-ideológico da experiência soviética, eram adotados oficialmente, pelo Estado e pelo PCUS, o Materialismo Histórico e o Materialismo Dialético com fundamentação marxista-leninista. Esta concepção doutrinária e sua prática eram consideradas o Socialismo Científico. O Estado era laico e materialista, como doutrina política oficialmente assinalada na Constituicão. O PCUS atuava em um sistema político unipartidário; não havia outros partidos políticos que propiciassem opções partidárias à população. O governo e o PCUS consideravam que outros partidos representariam a sociedade burguesa de classes e esta havia sido extinta na URSS. Neste mesmo contexto, não havia liberdade religiosa. O Estado Soviético era materialista e ateu. A Igreja Ortodoxa Russa não foi extinta, mas funcionava com restrições e sob vigilância policial, e muitos religiosos ordenados e leigos foram perseguidos. Nessa linha de política estatal, vigia um sistema que implicava em total ausência de liberdade de expressão do pensamento, existindo um rigoroso aparato policial de censura no Estado. Obras de arte, imprensa, discursos etc. estavam sob o controle absoluto da censura oficial. A desobediência implicava em punição rigorosa. Foi adotado como política de estado o "apagamento" (eliminação) das páginas de enciclopédias soviéticas de personagens consideradas inimigas do regime em geral e de Stalin, em particular. Fotos e textos eram eliminados e substituídos. Particulares (pessoas físicas) e entidades eram orientados a cortar essas páginas e recebiam do Estado novas páginas em substituição. Ou seja, p. ex., figuras de / e textos referentes a personalidades importantes do PCUS, que até a véspera eram celebradas, mas que caíam em desgraça, eram sacrificados. Jornais e revistas do PCUS eram noticiosos e exaltavam a "excelência do regime", e eram divulgados na URSS e no exterior. Não havia liberdade de reunião; reuniões dependiam do controle policial. Da mesma forma, o livre e amplo "direito de ir e vir" era inexistente. Tudo estava sob o controle rigoroso do estado autoritário. Durante o longo período de domínio stalinista, recrudesceu, como política de estado, intensa ação policial na busca de "inimigos do regime". Foi a "caça às bruxas" sem limites para as ações da polícia secreta sob o comando de Béria (v. abaixo, em outro artigo). As pessoas tinham que ter o maior cuidado com o que diziam, com seus comentários ou críticas, com suas amizades, com quem falavam, pois poderiam ser interpretados como tendo por objeto ou que estivessem envolvidas em ações contrárias ao PCUS, ao governo, a Stalin. Mais fortemente no prolongado período de domínio de Stalin, foi instituído/adotado oficialmente o denuncismo. A polícia política recebia, aceitava, acolhia denúncias, mesmo anônimas, sobre "inimigos", "traidores", partissem de quem partissem. Nos locais de trabalho instalou-se um cenário denuncista de colegas contra colegas. Mesmo no recesso dos lares as pessoas não estavam em segurança, porque eram assim admitidas pelas autoridades da inteligência as delações de parentes contra parentes, de pais contra filhos e de filhos contra pais. Era a presença e a ação do "big brother" orwelliano.

O Partido Comunista - o soviético e os demais que existiam no mundo - se considerava um "partido de massas". As unidades partidárias, que ainda eram pequenas, eram incentivadas pelo Komintern a crescer e se tornarem grandes partidos de massa. Nessa expressão - partido de massas - podem-se encontrar dois significados, um quantitativo e o outro qualitativo. Quantitativamente, o partido deveria ser ou tornar-se uma agremiação que empolgasse grandes quantidades de militantes, grandes massas (meta que não tem se efetivado, em todos os países; apenas ocorre ou pode eventualmente ocorrer após o partido se encontrar no domínio absoluto dos governos, quando os conquistam, seja qual for a maneira da conquista!). Em verdade, os dirigentes partidários dos PCs alimentam a expectativa de tornarem seus partidos grandes partidos de massa e chegam a estar “convencidos” de que concretizaram essa “tarefa” partidária (perante sua agremiação política e, em face do comunismo como entidade internacional). Na realidade política objetiva, esta expansão tem sido mera ilusão, uma quimera. No que diz respeito ao aspecto qualitativo, no campo dos valores sociais e ontológicos, quando as populações são enfocadas massivamente, é buscada a eliminação das individualidades; elas são objetivadas apenas como uma grande massa amorfa de "iguais". Diga-se, no entanto, que, na realidade objetiva, concreta, nas "massas", evidentemente, encontram-se as características das individualidades dos seres humanos que as constituem, que são inapagáveis!

O PCUS, em sua estratégia que visava a afirmação de sua doutrina de instauração de uma sociedade totalmente diferenciada em face da sociedade capitalista e burguesa, delineou um projeto para forjar o "novo homem" ou "homem novo", um ser humano gerado exclusivamente pelo sistema comunista instaurado na URSS. Este novo homem constituiria a sociedade nova que seria despojada dos males que maculam todos os demais sistemas sociais, organizacionais, políticos e econômicos até então existentes sobre a face da Terra (v. artigo III deste estudo). Porém, a realidade da fragilidade deste projeto foi explicitada, principalmente, a quando da derrocada da União Soviética. Setenta e quatro (74) anos passados desde a Revolução Russa (outubro/1917), com o domínio exclusivo e total do Partido Comunista no governo da URSS, e não foi criado este homem diferenciado. E o estado comunista se encontrava “protegido” do mundo burguês pelo pretendido isolamento. A URSS chegou ao seu fim pacificamente. A população "soviética", em geral, aceitou com naturalidade a desagregação do Estado comunista e, não apenas isto, pois a parte desta população que “passou” da URSS para a maior potência que constituía a URSS, a dominadora Rússia, assim como em relação às demais repúblicas, não exibe, ao Mundo, nenhuma marca diferencial que a possa caracterizar como um povo despojado dos vícios e das mazelas que se podem encontrar nos países "burgueses", não comunistas. Foram teóricos e revolucionários comunistas, membros do Partido Comunista que fizeram a Revolução Russa de outubro de 1917, que administraram durante 74 anos, inicialmente, a Rússia e, a partir de 1922, a URSS, e foram os comunistas no Poder que puseram fim ao que seria um modelo da construção de um estado comunista, em 1991. Finda a URSS, comunistas continuaram dirigindo a Rússia não-comunista, com Boris Iéltsin (o primeiro presidente russo pós-Estado Soviético), que foi sucedido por Vladimir Putin (como se sabe, ex-policial da KGB, a polícia política soviética), ainda hoje no Poder russo, em um estado capitalista com traços autoritários e maculado por persistente e enraizada corrupção e pela ação criminosa da máfia russa.

Stalin, o assim considerado "pai dos povos”, no âmbito do "culto à personalidade", ao falecer, teve seu corpo alocado, ao lado do esquife de Lenin, junto ao muro do Kremlin, na Praça Vermelha. Com o processo de desestalinização, seu corpo foi retirado deste local, que é exposto à visitação pública.

A URSS participou da II Guerra Mundial, como integrante dos ALIADOS, sendo estes uma frente de países associados no enfrentamento, na guerra, ao nipo-nazi-fascismo constituído no EIXO. As tropas alemãs hitleristas invadiram o território soviético. A União Soviética reagiu com a força do Exército Vermelho sob o comando do Marechal Zukov. Morreram, na guerra, cerca de vinte milhões de soviéticos, militares e integrantes da população civil. A batalha crucial de resistência soviética ocorreu em Stalingrado. As tropas alemãs não passaram deste marco estratégico, nesta hecatombe que os soviéticos consideraram ser a "Grande Guerra Patriótica". A resistência heroica do povo e dos soldados soviéticos em Stalingrado, que redundou no recuo das tropas alemães, tornou-se um símbolo da vitória aliada/do colapso nazista, que se aproximava. Com o recuo das tropas hitleristas, a partir da batalha de Stalingrado, teve início, na II Grande Guerra, a principal escalada, que propiciou a derrota da Alemanha nazista, em 1945, com a vitória dos ALIADOS (entre os quais se encontrava o Brasil).

A Campanha Mundial pela Paz (citando): "No confronto ameaçador, na guerra fria, a URSS, no interior desta equação de oposições, estava mais fraca, porque o outro agrupamento de potências - Estados Unidos e seus aliados - era detentor de poderio atômico, enquanto que o grupo oriental não estava equipado com tanto poder bélico. Essa desvantagem armamentista colocava, evidentemente, um dos lados contendores, na guerra-fria, em imensa desvantagem estratégica. Com as pesquisas desenvolvidas pelo Projeto Manhattan, norte-americano, a grande potência capitalista do ocidente havia dominado, desde próximo do final da II Grande Guerra, a tecnologia que lhe permitiu a fabricação, em escala, de armamentos nucleares. Uma ampla campanha pela Paz Mundial foi desencadeada, capitaneada pela URSS, mas contando com o apoio dos pacifistas de todo o Mundo. Então, foi na esteira dos caminhos trilhados por escritores pacifistas, como Romain Roland, Rilke, Joyce, Freud e Zweig, que Georg Bernard Shaw (1856-1950), Bertrand Russell (1872-1970) Einstein (1879-1955), Karl Jaspers (1883 - 1969), Sartre (1905-1980) e outras personalidades de prestígio mundial se empenharam, ante os governos das grandes potências, pressionando para que prevalecesse a racionalidade da preservação da vida, projeto humanista que apenas a Paz entre os homens poderia assegurar. Albert Einstein, o notável físico, posicionou-se contra o Projeto Manhattan. Stalin chegou a ser considerado um grande pacifista, inclusive por Russell. Foram realizadas as Conferências de Pugwash, no Canadá, contra as armas nucleares e pela paz mundial. Foi tornado público o Manifesto Russell-Einstein, com o qual esses dois notáveis humanistas se posicionaram contra o uso de armas atômicas e alertaram a humanidade e todos os governantes sobre a grave ameaça à paz mundial, que punha em risco a sobrevivência da vida sobre a face da terra. Esse manifesto foi um marco fundamental na luta pela preservação da paz entre as nações. Eu próprio, àquela época, ainda estudante, ao lado de outros idealistas, dei minha pequena contribuição à luta pela Paz Mundial, levando à Belém, Pará, a Campanha Mundial pala Paz. Lá, organizamos e participamos de passeatas e comícios pela Paz. Tendo em vista aqueles pacifistas exemplares acima referidos, diga-se que, para participar da Campanha pela Paz Mundial não era necessário compromisso ideológico com o lado contendor mais frágil e patrocinador da campanha; tratava-se de um empenho humanista para tentar evitar a guerra com seus legados de destruições, de mortes, e de mutilados físicos e psíquicos. No século, o Mundo já havia sofrido as tragédias de duas guerras mundiais, a segunda das quais, à época, terminara havia poucos anos. A guerra apenas serviria aos interesses da indústria armamentista e do mercado de armas. Paradoxalmente, o tempo atuou em favor da paz, porque durante o transcorrer destes anos de incertezas e ameaças, a URSS se apossou da tecnologia necessária à fabricação de armas atômicas e passou a produzi-las. Era um paradoxo, mas, em consequência deste "avanço" tecnológico da União Soviética, estabeleceu-se um equilíbrio estratégico entre as partes em confronto, então, entre entidades poderosamente armadas, situação de tensão internacional que se manteve até que, com a queda do muro de Berlim - em 1989 - e a derrocada da URSS - em 1991 -, a guerra-fria chegou ao seu fim." (esta citação final in Orlando SAMPAIO SILVA, "U.F.PA. - SEMINÁRIO DE ENSINO DE HISTÓRIA - 1968, 50 anos depois: Memórias, histórias, tecnologias e arquivos digitais", Belém, março de 2018)

(Em 13/08/2018)

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