ESTUDOS DE HISTÓRIA REGISTROS HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO E DA VIDA DO POVO HEBREU/JUDEU


Orlando SAMPAIO SILVA

I I PARTE - A

O D I L Ú V I O

Está registrado no Velho Testamento que Deus, insatisfeito com o comportamento pecaminoso dos viventes de então, decidiu puni-los drasticamente mediante um “dilúvio”, que inundaria as terras e sacrificaria seres racionais e irracionais. Estes pecados têm a ver com a fé e as práticas religiosas dos descendentes de Adão, que deviam culto e obediência ao deus único. Resta saber se também estavam condenados os demais povos da época, que eram politeístas e, assim, não cultuavam e desconheciam o Deus criador de Adão e Eva. Eles, também, estavam marcados pelo “pecado original”?!... Os descendentes de Adão estavam com esta mácula. Este assunto já foi discutido acima e será aclarado cada vez mais ao longo deste estudo. Registrada esta questão, siga-se na narrativa do dilúvio. Foi então que Deus atribuiu a Noé a tarefa de construir uma grande arca, na qual ele, Noé, deveria embarcar com sua família (eles foram os únicos humanos admitidos a bordo da embarcação), levando consigo casais dos animais, que seriam todos afetados pelo “Dilúvio”. Foi a Arca de Noé. É o dilúvio como símbolo de punição, e a arca, como alegoria da salvação. É difícil imaginar-se o tamanho e as características desta nave a ser construída apenas pelo trabalho dos integrantes desta família, com os recursos materiais e técnicos da época e na qual eles acomodariam desde animais pequenos e pacíficos até grandes animais, animais ferozes, serpentes etc.! Mas, assim narra o mito bíblico. Noé com seus filhos cumpriram a determinação divina. Então, aconteceu o dilúvio, uma tempestade torrencial e contínua, que durou 40 noites e 40 dias, que teria ocorrido no suposto período entre 2.349 e 2.348 a. C. A arca flutuou sobre as águas. No quadragésimo dia, passou a chuva e a arca encalhou sobre o Monte Ararat, que se situa no, hoje, território da Turquia, país vizinho da Mesopotâmia, no Oriente Médio. Há arqueólogos de nossos dias, que acreditam haver encontrado, no Monte Ararat, restos da Arca de Noé. Lembre-se do episódio poético no qual é narrado que Noé foi alertado para o fim do dilúvio quando voou até próximo a ele, no alto da arca, uma pomba branca que trazia no seu bico um ramo de oliveira. Ao ver a pomba e o ramo, ele percebeu que estava em terra. A propósito deste episódio, note-se que a pomba branca se tornou o símbolo da PAZ para a humanidade, para o resto dos tempos. Foi, então, que Noé desceu da embarcação, plantou parreiras e, no tempo certo, colheu muitas uvas, fabricou vinho e se fartou em bebê-lo até se embriagar e adormecer, afinal, para descansar, depois deste trabalho produtivo no campo e, da grande aventura diluviana.

Noé viveu com sua família no sul da Mesopotâmia (região onde veio a florescer o reino da Suméria) e teria morrido no Monte Ararat, local onde a arca aportou. Há referências, na Bíblia, aos filhos de Noé vivendo na Mesopotâmia.

Com o fim do dilúvio, colocou-se a questão do repovoamento da região devastada pela catástrofe diluviana. A situação é similar à do povoamento a partir de Adão, Eva e seus filhos e filhas. Noé e sua família (pelas narrativas sagradas) teriam sido os únicos sobreviventes (da estirpe) no final do dilúvio. Após o dilúvio, para que se efetivasse a reprodução humana, ou ocorreriam diferentes práticas de atos incestuosos ou, a busca de outras gentes de fora da família e que não houvessem sido vitimadas pela grande inundação, tendo em vista, também, todas as considerações acima desenvolvidas referentes ao caso anterior.

Dilúvios fazem parte das tradições mítico-culturais de muitos povos. Platão refere, no “Timeu”, a um dilúvio que teria ocorrido envolvendo Zeus e outros deuses, havendo mesmo referência a uma arca para salvar alguns deles da fúria das águas. Nesta narrativa grega, a arca veio a encalhar no Monte Parnaso.

Entre tribos indígenas se podem encontrar algumas que têm registradas em suas mitologias narrativas de “dilúvios”, de grandes enchentes. Entre os Tuxá, do norte da Bahia, constata-se a referência a uma grande enchente no Rio São Francisco, que, como um dilúvio, teria coberto a Ilha de Surubabel, onde viviam estes índios. Os sobreviventes atravessaram o rio em suas canoas para o lado baiano, local em que teve origem sua nova aldeia, que veio a chamar-se Rodelas (registro constante de “TUXÁ – Índios do Nordeste”, 1997, livro de minha autoria).

Na Mesopotâmia clássica, havia, na tradição sumeriana, a narrativa da ocorrência de um dilúvio. Conforme vimos anteriormente, os Sumérios, que estavam na Idade do Bronze, realizaram sua revolução urbana. Eles, em cerca de 3.200 a. C., saíram da pré-história, constituindo-se como uma “civilização”, tendo por marco da conquista deste degrau evolutivo a criação dos primeiros textos escritos na história da humanidade. Inventaram a escrita cuneiforme. Em pesquisas arqueológicas realizadas no sul da Mesopotâmia, onde viveram os Sumerianos (ou seja, o povo da Suméria), foram encontradas as tábuas de argila dessa época com inscrições em caracteres cuneiformes. Entre estas, as tábuas que contêm a Epopeia de Gilgamesh, mitos cosmogônicos, poesia já acima referida, que integra a tradição de registros de ocorrências, em tempos remotos, de grandes inundações, ditas “dilúvios”. Estas inundações estão narradas em textos e/ou nas tradições orais dos tempos fundadores de diferentes povos.

Os Filhos de Noé / O Repovoamento Pós-Diluviano / Novos Povos

Segundo intérpretes bíblicos, no processo de povoamento pós-diluviano, os filhos de Noé teriam dado origem a diferentes povos, a saber:

- Jafé: Gregos, Trácios, Citas, Frígios e Medo-Persas;

- Cam: Cananeus, Egípcios, Filisteus, Hititas e Amoreus;

- Sem: Hebreus, Caldeus, Assírios, Elamitas e Sírios, ou seja, povos semitas.

Existe o registro do desentendimento entre Noé e seu filho Cam, que viu seu pai dormindo, bêbado, em plena nudez e zombou dele por estar assim. Noé sentindo-se desrespeitado pelo filho, que o viu naquele estado, fê-lo sofrer mediante punição aplicada ao filho do seu filho.

Para alguns intérpretes bíblicos, o filho de Cam (ou Cã ou Cão) sobre o qual recaiu a punição (maldição?) de Noé pode ter sido Canaã ou Coxe (Cosh, Cus, Cu, Kosh). Este neto de Noé, Canaã, assim, foi condenado à escravidão, mas, como parte do castigo, veio, também, a tornar-se ancestral dos Etíopes (povo da Etiópia, África). Notar que Cam teria dado origem ao povo Cananeu e (ver bem!) teve, entre seus filhos, Canaã. Séculos mais tarde, veio a existir, no Oriente Médio, uma terra chamada Canaã, onde vivia o povo Cananeu. Está claro que, nessa narrativa bíblica específica sobre origens, está contida uma relação de causa e efeito, uma fusão de funções de paternidade com funções de fundadores de povos. É conveniente uma averiguação histórica sobre as origens e a formação de cada um desses povos, empreendimento complexo e gigantesco e que não está contemplado no projeto em execução.

Quanto aos Etíopes: Etíope, na linguagem hebraica, significava “cara queimada”. Existe, ainda hoje, etíopes que se consideram e são considerados judeus (muitos emigraram para o Estado de Israel dos nossos dias, onde foram acolhidos). Há intérpretes que afirmam, em acréscimo, que este neto de Noé (Canaã) foi a origem fundadora, não apenas dos etíopes (da Etiópia), mas, sim, de todas as etnias negras africanas, assim tidas como os de “cara queimada”. Considero esta uma visão interpretativa exagerada, carregada de preconceitos racial e de cor, ao classificar todos os “caras queimadas” (negros) como “etíopes”; neste caso, “etíope” deixaria de ser a denominação de um povo africano específico, para ser um nome genérico e abrangente para a totalidade dos povos da África subsaariana, igualando todos, eliminando as diferenças e identidades étnicas! Absurdo. A parte do continente africano ao sul do deserto do Saara é povoada por um avultado número de culturas e sociedades, de diferentes etnias, de diversos povos. Admitir aquela versão generalista, seria a negação do processo evolutivo biológico, social e cultural dos povos negros africanos, cujas origens vêm da espécie Homo sapiens (como todos os demais povos não africanos e os saarianos do norte do continente), sendo que, até o ponto em que se encontram, no presente, os conhecimentos sobre esse processo constitutivo, originário, os mais antigos integrantes da espécie Homo em geral tiveram origem e viveram na África, de onde emigraram para o resto do Mundo.

Segundo aquela concepção fundadora de povos, a partir de Sem [filho de Noé, e seus descendentes Patriarcas, e suas famílias (cf. registrado mais acima)], teria surgido a estirpe de pessoas que viriam a constituir-se e a organizar-se no povo Hebreu, o que viria a ocorrer em muitas gerações posteriores. Os Hebreus são referidos como um povo existente, em documentos históricos, pela primeira vez, em 1.200 a.C.

Considero inventiva, ficcional e carregada de mito, na tradição criacionista, esta versão sobre a origem dessa multiplicidade de povos acima referida, produtos que teriam sido da ação instituidora de povos dos filhos de Noé. Trata-se de uma hipótese que se funda na crença de que, após o dilúvio, os únicos humanos sobreviventes teriam sido Noé, sua esposa e seus filhos, e, na ideia de que, antes de Noé os únicos humanos teriam sido os Patriarcas e seus familiares, a começar por Adão e sua família. Já vimos acima a impossibilidade de esta crença ser verdadeira. Se esta concepção fosse verdadeira, até haveria certa lógica nesta crença etnogênica. Essa hipótese contém a ideia de que a população de habitantes do mundo de então seria muito pequena e habitava em um território restrito. Nesse tempo era desconhecido o tamanho da Terra, desconhecimento que perdurava nos séculos posteriores durante os quais a tradição bíblica foi escrita. Em uma hipótese absurda, a ser verdade que antes do dilúvio teriam vivido apenas os Patriarcas e seus descendentes, o castigo do dilúvio teria punido apenas essas pessoas. O dilúvio teria sacrificado apenas estas pessoas. Em verdade, o planeta era muito maior do que era conhecido pelos Hebreus e, habitado por outras populações no entorno do globo terrestre. Por outro lado, há uma impossibilidade factual na ficção de que três pessoas - os filhos de Noé - tenham sido as sementes originárias de tantos e diferentes povos em suas diversidades socioculturais e nos seus volumes populacionais como povos! Basta rever a relação dos povos que eles teriam originado (que se encontra acima), para ter-se a percepção de que este capítulo do povoamento pós-diluviano é mais um mito bíblico, que pairava ao nível do imaginário e da tradição do povo Hebreu. Em relação aos Hebreus, alguns daqueles povos são pré-existentes, como os egípcios, outros, foram contemporâneos em sua constituição étnica, como é o caso do povo árabe.


[CONTINUA: Próximo Capítulo – A Torre de BabelLínguasMulheres Bíblicas]

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