ESTUDOS DE HISTÓRIA REGISTROS HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO E DA VIDA DO POVO HEBREU/JUDEU

Orlando SAMPAIO SILVA

I PARTE - C - Sequência genética


OS FILHOS/AS DE ADÃO E EVA - A PROCRIAÇÃO

Foram filhos de Adão e Eva: Caim, Abel, o terceiro filho Set e outros filhos e filhas de nomes desconhecidos. Segundo o Gênesis, Deus criou o primeiro homem e a primeira mulher do “povo escolhido” - o “povo de Deus” - e eles tiveram filhos no cumprimento da determinação divina: “Crescei e multiplicai-vos”. No exercício desta missão biogenética, os primeiros homens e mulheres - Adão e Eva, e seus filhos/as (irmãos e irmãs entre si) - procriaram, possivelmente, nos contatos com outros humanos, homens e mulheres, que povoavam a Terra. A não ser assim, o povo Hebreu-Judeu, o “povo de Deus”, em suas células originárias mais remotas, teria decorrido da prática generalizada de incestos, de atos incestuosos com relações procriadoras entre pai, mãe e filhos, filhas, e entre irmãos e irmãs. Considere-se, no entanto, que o conceito de incesto, que inclui valores éticos e morais nos termos que os conhecemos, era inexistente nesses tempos bíblicos primevos; ele foi formulado milênios depois, nas sociedades romano-judaico-cristãs. Salvo a ocorrência daquela possibilidade acima aventada, e a geração de novas pessoas teria decorrido de relacionamentos sexuais entre procriadores e procriados, na geração de filhos, de formas (o cacófato é proposital!) similares às que ocorrem entre animais irracionais. Lembre-se que os povos tribais, que foram estudados pelos antropólogos, em todos os continentes, possuem regras de casamento rigorosas, das quais constam também os tabus de incesto, regras que são consideradas em suas proibições de matrimônios e nas prescrições dos casamentos preferenciais.

Note-se que os seres humanos se originaram em um processo evolutivo biológico e, a partir de determinado estágio, também sociocultural, que transcorreu ao longo de milhões de anos, até que se constituíram, no correr do processo, os hominídeos, os integrantes do gênero homo, os humanos pré-históricos, os ditos “homens das cavernas”, que tiveram origem na África, que passaram pelas Idades da Pedra e dos quais advêm, entre outras, as espécies Neandertal e Sapiens. A humanidade é sapiens com alguma (pequena) contribuição genética neandertal. No estudo da narrativa bíblica referente à criação de Adão e Eva, deve considerar-se este processo evolutivo e nele penetrar. A evolução das espécies é empiricamente real, concreta, não é mítica! Não é um procedimento propriamente inteligente negar ou desconsiderar os saberes acumulados por estudos científicos a propósito da evolução biológica e sociocultural dos seres humanos.

Conta o mito bíblico, que Caim, o primogênito de Adão e Eva, cultivava a terra como agricultor e Abel era pastor de ovelhas. Um dia, os dois irmãos fizeram oferendas no ritual de sacrifícios a Deus. Caim ofereceu produtos da agricultura, e Abel sacrificou uma ovelha que ofertou a Deus ressaltando as partes gordas do animal sacrificado. A oferenda de Abel agradou a Deus, mas a de Caim, não. Em face da reação divina desigual, Caim se enfureceu e matou seu irmão Abel, praticando o primeiro homicídio na história do seu povo. Pela segunda vez, naquele tempo, o Mal predominou no comportamento humano. Pelo seu ato, Caim foi condenado pela divindade a “ser um fugitivo errante pelo mundo”. Seus filhos passaram a ser biblicamente referidos como “os filhos do homem”. Caim teve filhos com sua mulher (quem seria essa mulher?! Qual o seu nome?): o filho Jubal teria inventado a música; a filha Noêmia, a fiação e a tecelagem com lã, e o filho Tubalcaim tornou-se ferreiro e fabricava instrumentos de cobre e ferro (!). Bíblia.

Nesta família bíblica inaugural se encontravam o primeiro, o segundo e o terceiro Patriarcas do “povo de Deus”: Adão, seu filho Set e o filho de Set, Enos; e assim por diante, a partir deles, os demais Patriarcas, na linhagem dos descendentes destes primeiros, sempre os chefes de famílias, varões. Todos os Patriarcas foram pastores, dedicavam-se ao pastoreio, conforme os padrões econômicos e sociais prevalecentes no processo evolutivo e na organização social, em seu tempo.

O Patriarca Enoque, filho de Jarede (assim como o profeta Elias, que viveu muito mais tarde, no tempo do rei Acabe), na tradição bíblica do Velho Testamento, teria sido levado vivo para o Paraíso. Ele não teria morrido!

De acordo com uma interpretação da Bíblia, os dez primeiros personagens principais, varões, de Adão a Noé, são classificados como os Patriarcas antediluvianos. Em outra interpretação, foram Patriarcas (apenas) Abraão, seu filho Isaac e o filho de Isaac, Jacó (Israel), ou seja, a eles foi atribuída essa função a partir da missão divina cometida a Abraão de conduzir o “povo de Deus” à “Terra Prometida”. Aí foi instalada a determinação e a missão para a formação de um povo até então inexistente, povo este que seria o “povo de Deus”, o “povo escolhido”. Em qualquer dos casos, todos os varões-Patriarcas, começando por Adão, eram monoteístas, acreditavam e obedeciam a um único deus. Com esta posição mítico-religiosa de crença e culto a um deus único, esses chefes de famílias dessa linhagem, constituíram-se (ou foram constituídos, foram considerados) Patriarcas do “povo de Deus”.

Os Hebreus-judeus, evidentemente, não foram o “primeiro” povo existente na Antiguidade, ou seja, na Idade Antiga. Uma leitura apressada e com enfoque exclusivamente religioso, pode dar a ideia da exclusividade do povo Hebreu, do qual adviriam os demais povos da Idade Antiga. Em verdade, havia os demais povos à época, e estes povos eram todos politeístas. Os Sumerianos eram politeístas, assim como os Assírios, os Babilônios, os Egípcios, os Fenícios, os Persas, os Caldeus, os Gregos, os Romanos etc. Os Patriarcas pertenciam e viviam em meio a culturas nas quais as crenças religiosas ou míticas eram politeístas. Apesar deste contexto religioso na região, no relato bíblico, ao Patriarca Noé foi atribuída a tarefa salvadora no evento do dilúvio, e o Patriarca Abraão recebeu a missão condutora e instituidora, ambos, por um deus único, divindade que, como foi registrado, eles cultuavam (assim como os demais Patriarcas).

A classificação dos Patriarcas em antediluvianos, e os demais, pós-diluvianos, pode relacionar-se à ação forjadora que foi atribuída a Sem, filho de Noé. Da família de Sem (de acordo c/ a narrativa bíblica) vieram a constituir-se diversos povos da antiguidade, povos semitas, entre os quais os Hebreus, ou Israelitas, ou Judeus (cf. abaixo).

Teria sido na fase pós-diluviana, como se vê, com a descendência de Sem, através das famílias dos Patriarcas que se sucederam, que viria, no futuro, com Abraão, a constituir-se o embrião do povo Hebreu-Judeu. “Patriarcas”, nessas situações originárias e míticas, têm o significado de “pais fundadores”.

Reafirme-se que para alguns intérpretes bíblicos, os patriarcas foram instituídos a partir da missão atribuída a Abraão de conduzir o “povo de Deus” para Canaã, onde ele deveria viver. Segundo esta interpretação, são patriarcas Abraão, seu filho Isaque e seu neto Jacó (filho de Isaque) (cf. veremos em outro capítulo).


[CONTINUA: Próximo Capítulo – O Dilúvio – Os Filhos de NoéO Repovoamento Pós-diluviano Novos Povos]

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