ESTUDOS DE HISTÓRIA.REGISTROS HISTÓRICOS DA FORMAÇÃO E DA VIDA DO POVO HEBREU/JUDEU

Orlando SAMPAIO SILVA

SEQIUÊNCIA GENEALÓGICA - DA ORIGEM ATÉ J.C. (Intepretações bíblicas).

Nota Introdutória: Os assuntos bíblicos tratados neste estudo se fundamentam no Velho Testamento, principalmente no Gênesis e em outros Capítulos da Bíblia, constantes do Pentateuco e de outros livros bíblicos. Hipóteses e interpretações, que não forem referências a outros exegetas, são de minha responsabilidade. A Bíblia - Velho Testamento - foi escrita a muitas mãos, por cerca de quarenta escribas (?) da antiguidade hebraica. A tradição cristã registra a informação de que os livros que constituem o Velho Testamento foram escritos no período que vai de 1.500 a 450 a. C. Estes Livros contêm registros de fatos predominantemente não testemunhais (com relação aos escribas) e que faziam parte de tradições orais antigas passadas de geração em geração, e que contêm mitos, lendas, fabulações, alegorias, poesias, ficção e narrativas, todos referentes à vida do povo Hebreu-Israelita-Judeu. Os mitos e as lendas se fundam em fatos reais uns e em elaborações simbólicas outros, que são fabulados e que são produtos do poder inventivo da inteligência humana, que cria narrativas de realidades que muitas vezes têm existência apenas no imaginário dos fabuladores e que passam a fazer parte das tradições orais. Porém, diga-se: todas as criações do gênio humano, mesmo as ficções, os delírios e as fantasias são elaboradas, consciente ou inconscientemente, a partir das vivências do autor ou produtor, no Mundo. O notável romancista e contista brasileiro Machado de Assis, referindo-se à “origem” dos personagens dos seus contos e novelas, diz: “figuras que vi ou imaginei; ideias que me deu na cabeça reduzir a linguagem.” (in Prefácio, Páginas Recolhidas, 1899). Os mitos pertencem ao reino ou à ordem da cultura nas sociedades dos sapiens.

No caso específico do povo judeu, há considerações e interpretações importantes da especificidade de sua história, que é narrada no Livro Sagrado, a serem levadas em conta. Mesmo sendo um livro religioso a principal fonte de dados informativos, a história deste povo convém ser abordada não apenas de uma perspectiva religiosa. É verdade que o povo Hebreu, diferente de outros povos da Antiguidade, se constitui em um problema para a história e para a arqueologia. Considere-se que existem vestígios arqueológicos abundantes e textos antigos escritos de povos da Mesopotâmia, como os Babilônios e os Assírios; que assim é, também, com relação a outros povos, como, por exemplo, a pletora de testemunhos materiais deixada pelos Egípcios, pelos Gregos e pelos Romanos e mesmo por povos das Américas como os Maias, os Aztecas e os Incas etc. Os Hebreus apresentam, em termos comparativos com outros povos antigos, dificuldades aos arqueólogos e aos historiadores por não terem deixado estes tipos de “vestígios” materiais tão volumosos das épocas de sua formação como um povo específico. Os Hebreus produziram exemplares de sua cultura material, sim, que ficaram como herança para o conhecimento da posteridade, porém, poucos, tendo em vista, comparativamente, a pluralidade de vestígios arqueológicos de outros povos da Antiguidade. A reconstituição ou reconstrução histórica da civilização hebraica tem sido sustentada, basicamente, nos dados informativos constante de seus livros religiosos, “sagrados”, reunidos no Velho Testamento (de judeus e de cristãos), na Bíblia, na Torá (judaica), no Alcorão (muçulmano). Estes livros religiosos, contêm o leitmotiv que vai da origem das origens (a criação), passa pela formação/constituição do povo, pela institucionalização da religião, pelas guerras na instalação/localização como povo e estado em um território, pelos dirigentes do povo, e segue pelas dominações/subordinações (inclusive, escravidões) de que foram vítimas e pala movimentação/mobilidade social e geográfica coletiva, de grupos e de indivíduos (diáspora), até chegar aos dias atuais. São registros e narrativas escritos milênios e séculos depois das “ocorrências” dos episódios referidos. São mitos, fabulações, “revelações”, tradições e mesmo fatos empíricos que integraram a realidade histórica desse povo, episódios que se perpetuaram tendo como reforço a crença, a fé religiosa, e que passaram, pela linguagem oral, de geração em geração, assegurando a sobrevivência do testemunho e da memória coletivos. Porém, diga-se que a formação e a vivência desse povo, ao longo de sua história, têm características muito específicas, próprias, particulares. Estas características, como veremos, não permitiram, digamos, não deram tempo (apesar dos milênios!) a que o povo judeu também realizasse grandes construções em amplas cidades, cujas ruínas ficassem como marcantes vestígios arqueológicos materiais, que narrassem, mediante suas interpretações, essa história. A exceção principal se encontra no Templo de Jerusalém. Também, em verdade, não deixaram textos escritos, ainda que com conteúdos míticos, que se reportem aos seus primeiros tempos na antiguidade e que tenham sido produzidos como testemunhos temporais ou próximos por escribas dessas épocas priscas. Diga-se, também, por antecipação, que os sumérios, os criadores dos primeiros textos escritos, escreveram seus mitos cosmogônicos, sua epopeia originária e heroica. Logo veremos a razão de ser desta referência, aqui.

Porém, esta é a situação em que são colocados os estudiosos da história hebraico/judaica. Não desprezar ou minimizar a contribuição dos livros “sagrados” como fontes primárias e/ou secundárias de informação. Nesta condição e nesta concretude históricas, eles são fundamentais. O importante é proceder abordagens com compromisso científico, vendo a história como uma ciência humana, uma ciência social, que utiliza instrumentos científicos de estudo, uma metodologia de abordagem que possibilita aproximações com confiabilidade. Formulem-se hipóteses e se as teste em suas variáveis, em seus indicadores, utilizando os dados empíricos da realidade disponíveis, realizando análises destes dados e suas interpretações, utilize-se o método comparativo, para então elaborar os textos reconstrutores da história. Tentemos fazer a história do povo em sua evolução social e não apenas a dos vitoriosos. Não é necessário reescrever a Bíblia, nem refutá-la. Utilizemo-la como fonte histórica. Ajamos como estudiosos imparciais, sem preconceitos, sem bias, interessados em contribuir para ampliar o conhecimento da sociedade humana. Foi o que fizeram pesquisadores e teóricos da “nova história” da École des Annales, como Lucien Febvre e Marc Bloch, seguidos de Fernand Braudel, Jacques Le Goff, Ranke... e, com os mesmos compromissos, os estudos, com o uso do método dialético, realizados pelos filósofos da Escola de Frankfurt, sendo seus principais pensadores: Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Jüngen Habermas e Walter Benjamin. Estes estudaram as sociedades humanas, como a judaica, levando em conta o Weltgeist e o Zeitgeist. Que eles nos sirvam de orientação; aprendamos com eles. Como estudar-se a história da vida do povo Hebreu/judeu sem considerar o espírito do tempo?! Impossível.

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I PARTE - A


P R I M E I R O S T E M P O S: ADÃO E EVA E SUA FAMÍLIA

O JARDIM DO ÉDEN - A MESOPOPTÂMIA

De conformidade com a narrativa constante do Livro do Gênesis, Adão e Eva, criados por Deus, há hipotéticos 6.000 anos, viveram, nos primeiros tempos, no Jardim do “Éden”. No registro bíblico, Deus criou o homem “à sua imagem e semelhança”, ou seja, deu origem ao “seu duplo” ou “duplo ser” ou “duplo eu” (pode-se referir a sósia e mesmo a alter-ego). A descrição do Jardim do Éden se reporta a uma região de natureza exuberante, onde havia muita vegetação, um pomar, onde o casal primevo pôde viver e desfrutar as delícias do ambiente bucólico e paradisíaco na Terra. Este é o mito da criação, uma narrativa criacionista.

Onde se localizava este lugar povoado de árvores frutíferas, com muitas flores e frutos, além dos animais das diversas espécies, e onde a água corria em abundância, fertilizava o solo e nela os viventes saciavam sua sede?

A Mesopotâmia, por ser uma região, no Oriente Médio, constituída por dois rios caudalosos, era talvez a única região propícia à existência de paisagem como a do Jardim. A Mesopotâmia é também denominada Crescente Fértil. Trata-se de um território fértil cercado por terras desérticas e semiáridas.

Na tradição fundadora do povo Hebreu-Judeu narrada no Gênesis, em vários pontos, registram-se referências aos locais de nascimento e vida de diferentes personagens bíblicos. Assim, há referência a que Apachade (pai de Selá), Naor (pai de Terá), Terá (pai de Abraão) e Abraão (pai de Isaac) são homens da cidade de Ur, capital da Suméria, onde nasceram e viveram com suas famílias. Nos dias atuais se podem encontrar, onde viveram os sumerianos, no sul da Mesopotâmia, edificações relativamente bem conservadas que integravam o meio urbano sumério (descobertas arqueológicas). Abraão lá esteve até que recebeu a missão divina de deslocar-se para Canaã, a Terra Prometida aos Judeus pelo deus único. Esta divindade foi cultuada por Abraão e por todos os seus familiares e seus demais parentes nas linhagens ascendente e descendente. Canaã é a segunda referência espacial, geográfica, existente no Gênesis, que também permite localização. A Suméria e Canaã eram terras que se situavam na região do globo atualmente denominada Oriente Médio. Canaã, na antiguidade bíblica, se localizava nas terras do hoje Estado de Israel e nela estavam incluídas as Colinas de Golã, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. A Suméria se localizava no “Crescente Fértil”, na planície ao sul da Mesopotâmia, sendo esta região formada pelos rios Eufrates e Tigre, no território do atual Iraque; uma área com águas abundantes e cobertura vegetal, situação de benesses paisagísticas naturais que são ressaltadas pelo fato contrastante dessa região interflumínea ou mesopotâmica ser cercada de terras desérticas, áridas, secas, semiáridas, como sói acontecer em quase a totalidade das terras do Oriente Médio.

Há uma narrativa heroica sumeriana, dos tempos originários, a “Epopeia de Gilgamesh”, que contém o “Mito da Criação” sumeriana, que ocorrera no sul da Mesopotâmia. Esta narrativa mítica se refere à criação do homem por um deus, que o fez “à sua imagem”. Lembre-se que consta do Gênesis que Deus criou o homem “à sua imagem e semelhança”. Esta tradição mítica sumeriana, na poesia, refere à existência, na Mesopotâmia, de um jardim chamado “Éden”. Segundo alguns intérpretes dos livros antigos hebraicos, do Gênesis em particular, a tradição da criação de Adão e Eva se inspira nesta narrativa da origem da Suméria constante da “Epopeia de Gilgamesh”, poema que se reporta aos tempos dos heróis fundadores sumerianos. Éden é uma palavra da língua sumeriana que significa planície, lugar onde há pomares. A palavra que designa o “jardim” dos tempos originários de Adão e Eva - Éden - é um vocábulo da língua sumeriana. A “Epopeia de Gilgamesh” se encontra escrita nas onze tábuas de Gilgamesh, sendo estas tábuas de argila artefatos arqueológicos encontrados em pesquisas realizadas na região em que viveu o povo sumeriano, no sul da Mesopotâmia. Há outras evidências históricas referentes à unicidade entre a tradição hebraica pré abraâmica e a da Suméria. O mesmo poema sumério se refere à ocorrência de um grande dilúvio na região dos rios Eufrates e Tigre, que cobriu com as águas as terras sumerianas e regiões vizinhas.

Há, assim, indicadores históricos de que o Éden bíblico se situava na terra de Abraão. A cosmogonia do povo Judeu ou Hebreu, desde a origem adâmica, incluindo o Jardim e, ao longo do tempo, com a ocorrência do dilúvio, está relacionada à terra de Abraão, se reporta à Suméria, a Ur, à Mesopotâmia; tem correspondência com os mitos originários sumerianos. Abraão e sua parentela nasceram e viveram em Ur e desta cidade Abraão partiu com os membros de sua família no rumo da “Terra Prometida”.

O povo sumeriano, no correr do processo evolutivo da humanidade, realizou a revolução urbana, ou seja, passou do nomadismo da caça e da coleta, para o sedentarismo associado à revolução agrícola. Os estudos arqueológicos realizados até o presente, consideram que, no contexto desse processo evolutivo social e cultural, os sumérios inventaram a primeira escrita, produziram os primeiros textos escritos pelo homem. São registros de trocas comerciais e narrativas míticas escritas em caracteres cuneiformes. Os sumérios, vivenciando seu processo evolutivo, atingiram a Idade do Bronze e, com as revoluções agrícola e urbana, penetraram no processo civilizatório e instituíram uma civilização. Eles criaram o sistema gráfico de escrita cuneiforme cerca de 3.200 anos a. C. É provável terem eles, com a invenção da escrita (que, por sua vez, está associada àquelas duas revoluções), constituído ou dado origem à primeira civilização sobre a face da Terra. Registre-se, com fins referenciais e comparativos, que há estudos dos pesquisadores de hoje sobre a pré-história e a história antiga que sugerem que a escrita chinesa teria sido criada por volta de 6.600 anos no passado. Hipótese em investigação. É possível que tenha ocorrido um descompasso evolutivo entre o Oriente e o Ocidente! No entanto, até agora, os achados arqueológicos confirmados sobre as primeiras escritas chinesas se reportam ao século XVI a. C. e mesmo a 1.250 ou 1.200 a. C. Registre-se, também - hieróglifos (Egito): 3.000 a.C.; caracteres indianos: em torno de 500 a.C.

A história quase toda do povo Hebreu-Judeu, antes da “diáspora”, como veremos, transcorreu na região que, modernamente, é denominada Oriente Médio. Note-se, também, que há o período importante do povo judeu no Egito, norte da África.

Segundo a tradição bíblica, a linhagem familiar ascendente de Abraão teria um encadeamento que passa de geração em geração, em determinado momento nela aparece Noé e sua família, e segue até Adão e sua família.

Os personagens masculinos principais, varões chefes de famílias, naquela longa linhagem familiar, foram os Patriarcas do povo Hebreu-Judeu, conforme a relação anotada logo abaixo, que contém algumas personagens fundantes, fundamentais para a compreensão da formação do povo judeu.

ADÃO (o primeiro na sequência genealógica) – Set (filho de Adão) - Enos (filho de Set) – Cainã (filho de Enos) – Maalalei (filho de Cainã) – Jarede (filho de Maalalei) – Enoque (que, segundo o relato bíblico, foi levado vivo para o céu; filho de Jarede) – Matusalém (filho de Enoque) – Lameque (filho de Matusalém) – NOÉ (o homem da arca; filho de Lameque) – Sem (filho de Noé) – Arpachade (filho de Sem) – Selá (filho de Arpachade) – Éber ou Héber (filho de Selá) – Pelegue (filho de Éber) – Reú (filho de Pelegue) – Serugue (filho de Reú) – Naor (filho de Serugue) – Terá (filho de Naor) – ABRAÃO (filho de Terá) – Isaque ou Isaac (filho de Abraão) – Jacó ou Jacob, que, depois, veio a chamar-se Israel (filho de Isaque).


[CONTINUA. Próximo artigo: A Queda / A Instituição do Trabalho] E-mail: osavlis@gmail.com


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