Estado, generais e governo


Seria demasiado esperar uma expressiva e aparente guinada para a esquerda, a seduzir a caserna. As consequências do golpe militar de 1964 não são coisas de que se possam orgulhar, em especial as lideranças castrenses que se auto-proclamam patriotas e democratas. O movimento deflagrado por colegas mais antigos, ou apenas antecessores nas três forças, deixou legado que só os indignos do uso da farda ousam defender. Daí certa perplexidade que dizem estar acometendo oficiais da ativa e, em medida maior, os estrelados com assento à ilharga do Presidente Jair Bolsonaro. No máximo, os menos insensatos põem panos quentes, sempre que algum pronunciamento em que o Chefe, não se sabe até quando, defende a tortura e insiste no auto-golpe que o próprio general Hamílton Mourão insinuou. O esquecimento a que foi relegado o General-Presidente Ernesto Geisel não diz outra coisa. Embora defensor da tortura, “quando necessária”, o rígido militar trazia consigo certo viés nacionalista. Talvez seu discurso e suas decisões não coubessem mais, dado o grau de mundialização ou globalização de tudo. Há, ainda outros aspectos a considerar, um dos quais só passa despercebido aos que não têm boa memória ou nada sabem da História. Refiro-me, particularmente, aos pretextos para a derrubada do fazendeiro gaúcho João Belchior Marques Goulart: evitar que o País caísse na mão do comunismo e combater a corrupção. Do primeiro objetivo pode-se dizer ter sido alcançado, a despeito de o cenário no mínimo exagerado como o descreveram o governo norte-americano e seus servos brasileiros, fosse obra de ficção. Nem foi preciso esperar pela queda do muro de Berlim.

Quanto ao outro objetivo, não precisa ir longe para atestar o absoluto fracasso (ou aí se encontre o mais comemorável êxito?). Disso dão conta os fatos que deram celebridade ao ex-Ministro Sérgio Moro, o aparecimento de apêndices do Estado sob a forma de empresas privadas, a adoção das rachadinhas, a propina acobertada pela censura e outras formas próprias da ditadura. Isso tudo, sem esquecermos do fechamento de qualquer oportunidade do debate honesto das questões sociais e da formação de lideranças jovens. A equivocada aventura no Araguaia deu o tiro de misericórdia na resistência à ditadura.

Hoje, a perplexidade também frequenta os arraiais oposicionistas e os que alegam indignação. Muitos dos indignados estão perplexos pela presença de tantas estrelas nas costas de um ex-militar excluído das forças, certamente por suficientes e justos motivos. Dê-se, com alto grau de generosidade, a hipótese de estarem ali na tentativa de evitar a escalada autoritária, desrespeitosa, desqualificada de seu ex-colega, enquanto Presidente da República. Admita-se, também, que sua submissão às ordens do Chefe correspondem a determinação constitucional. Há, porém, outras razões igualmente constitucionais exigentes de postura firme no trato das graves questões geradas no ventre do próprio Palácio do Planalto.

Otimista, penso possível manter estrito respeito à Constituição, com ou sem Bolsonaro na Presidência. Não será intromissão indevida ter generais que se apresentam como republicanos, defensores do Estado Democrático de Direito, patriotas misturados aos congressistas, para influenciar a adoção dos ritos políticos prescritos na Carta Magna. Com vantagens para esses abnegados amantes do Brasil: nos postos em que se encontram são agentes políticos e farão prova de que agem segundo a convicção de que servem ao Estado, não ao governo. Entenda-se governo como uma estrutura social e administrativa, não como o entende o Capitão-mor. Ou, na sua expressa preferência, dono da Constituição.

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