Estado de coma

Os leitores já encontram à venda o livro recém-concluído do ex-Ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta. O título é sugestivo, indicando talvez haver muito o que ler nas entrelinhas, além do que pode ser encontrado no miolo da obra. UM PACIENTE CHAMADO BRASIL, assim, tem grande probabilidade de tornar-se um best-seller. Do que já se ouviu dizer em aparições televisivas, Mandetta narra os 87 dias em que, membro do primeiro escalão da equipe Presidencial, tentou firmar seu prestígio profissional. Não contava ele - nem sei se relata nas páginas da obra - com a férrea hostilidade do chefe à Ciência e à Vida. Não estivesse esta, qualquer a hipótese aventada, submissa à outra. Pode-se desde logo, todavia, afirmar com serenidade o que o ex-Ministro pensa do país que ele ainda pretende governar: uma nação adoecida, carente de tratamento sério e fundado no conhecimento, não no voluntarismo dos ignorantes e mandões. Como ele trata e trataria o paciente, uma vez instalado no Palácio do Planalto ou ao lado de quem lá se instale, é o que deveremos saber, lendo-lhe a obra. Pelos cálculos de Mandetta, ainda morrerão cerca de 40 mil brasileiros, antes que se dê por controlada a pandemia. Se, para os pacientes reais, aqueles aos quais falta a proteção social tão cuidadosa e planejadamente buscada, a contribuição do médico Luís Henrique ficou a meio, para ele ainda não terá chegado ao meio o caminho eleitoral em que transita. Disso já outros analistas se ocuparam, incapazes de, com a experiência que têm no ramo, identificar e dizer das reais motivações do livro. De qualquer maneira, resta desejar que, médico de profissão anterior, o político Luís Henrique Mandetta não considere o País em estado terminal. Ou que, reconhecendo ser essa a condição do paciente, saiba que remédios prescrever para a cura. Por enquanto, só sua pretensão presidencial (ou vice-presidencial, se é o caso)está em processo de cura.

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