Esquecimento e memória


Esquecimento e memória

Guardem-se dois nomes, porque será prudente. Se não para impedir que a farsa se repita, pelo menos para não sermos vencidos por qualquer surpresa: Góis Monteiro e Mourão Filho. General o primeiro; o segundo capitão. A História do Brasil registra-os nas páginas mais sombrias de nossa trajetória política. A urdidura de que participaram ganhou o nome de Plano Cohen e deu pretexto para o golpe de 1937. A primeira das infaustas ditaduras sobre as quais se alicerça a realidade que todos hoje experimentamos. Tramita nas lides judiciárias, paralela à pandemia por muitos aplaudida, desejada e estimulada, questão que versa sobre o esquecimento. Algo semelhante à garantia de impunidade aos que matarem sob o pretexto de garantir a paz social. Por mais que muitos desejem identificar coincidência nos fatos, os de ontem parecendo matriz copiada pelos de hoje, não é disso que se trata. O que alimenta a História, em grande medida, é a memória. Sem esta, torna-se impossível deixar registrados os passos e os caminhos que nos trouxeram ao presente. Ao contrário, maior a memória, mais recolheremos material capaz de levar-nos a outros juízos, à superação de nossas próprias limitações cognitivas. Importante mais que tudo, só assim teremos esclarecidos fatos de que apenas suspeitamos, em qualquer hipótese situação pendente de elucidação. No escuro, o ódio aduba com mais eficiência o pasto em que se saciam apetites e taras. Tramita no Supremo Tribunal Federal questão relativa ao famoso assassinato de uma adolescente – Aida Cury. A matéria coloca o esquecimento em questão. Pretende-se impedir que a sociedade das pessoas de bem(ns) saiba por que Cássio Murilo teve fim diferente de seu cúmplice Ronaldo, na curra (esse era o nome que então se usava) que provocou a morte da jovem. David Násser, com suas virtudes e seus defeitos, passou anos esforçando-se por fazer o que não pode pelas suas próprias mãos. Escandalizou o quanto pode multidões tão enfurecidas quanto as que hoje desejam ver seus tributos pagarem o extermínio daqueles dos quais divergem. Pois os pioneiros de 1937 cevaram nos estábulos e pântanos as personagens de uma das mais sórdidas farsas de que se tem notícia. Tudo em nome da moralidade, dos ideais proclamados cristãos e dos interesses a que serviram os de ontem, os de hoje e, se duvidarmos e não resistirmos, os de amanhã servirão. A operação Lava Jato, a que muitos ainda emprestam algum tom de virtude, é apenas mais um dos atentados com que se têm defrontado a democracia, a república e a sociedade humana. Não faltam nas práticas de seus principais protagonistas, os vícios por eles atribuídos aos que buscaram excluir do mundo dos vivos. Sem nenhum exagero, esse o objetivo final do processo que urdiram e a que se entregaram com afinco e abjeto interesse. Não incomodava qualquer dos servidores públicos arrebanhados nas procuradorias e varas judiciais, o saque perpetrado pelos que acusavam de lesar a Petrobrás. Apenas o destino da dinheirama assim alegadamente obtida era a causa de seu cí(n)vico incômodo. Não é outra coisa o que nos pode dizer a intenção de criar uma fundação para onde fluiria o dinheiro das multas pagas à Petrobrás. Nem precisa apurar mais que a proteção dada a determinados políticos, cuja passagem pela porta de qualquer delegacia de furtos pode levar ao risco de convite para ocupar uma de suas celas. Bastaria seriedade do delegado de plantão. Esquecer, seja que episódio for, só ajuda o crime, não quem deseja combate-lo de fato. Mesmo se conviermos em relação à existência, hoje, de uma nova classificação para os bandidos: os de quem sou amigo e os outros, de quem não gosto. A memória, não o esquecimento, é que poderá proteger os bons cidadãos e os que ainda veem alguma possibilidade de voltarmos a merecer o rótulo de humanidade que reivindicamos. Cada dia menos...

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