Escravidão e perversidade acumuladas
- Professor Seráfico

- 13 de mai.
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Apenas mercadoria, o trabalho humano segue seu trágico caminho. Considerado somente como fator de produção, ele é frequente e crescentemente destituído de suas peculiaridades. A maior delas, a de ser apanágio da espécie animal que se apresenta como superior às demais espécies. Está sujeito, portanto, a uma escala de valores que não podem ser encontrados nos livros a que têm acesso os predadores inscritos na rubrica capitalismo. Assim, nada surpreendente no fato de que o tratamento dispensado aos que o têm como maior riqueza, e exclusiva - os trabalhadores -, venham gradativamente perdendo conquistas alcançadas com luta e sacrifício. O que temos chamado precarização, pejotização, depreciação e adoecimento constituem a moldura m que se projeta a exploração da força-de-trabalho. Um bem como outro qualquer, passível das operações de compra-e-venda, porque para isso serve o deus mercado. A tal ponto chegam os interesses dos acumuladores, que toda uma pretensa filosofia de armazém (porque soaria ofensivo aos boêmios dizê-la filosofia de bar) articula os diversos segmentos econômicos interessados nos livros Diário, Caixa e Razão, em prol da nefasta causa. A prática do ilusionismo é necessária, ainda que somente a alienação mental cultivada e defendida como virtude tenha prevalecido sobre qualquer fundo de inteligência e razão. Faz tempo, sabe-se pelo SEBRAE (logo ele!) da exígua sobrevivência de pequenas, médias e microempresas, como consequência de outro desses instrumentos de tortura mais recentes. A demissão voluntária, neste caso. O que os consultores e publicitários postos a serviço do capital enfeitam com palavreado constante na pregação dos arautos e beneficiários da desigualdade. Todos devem ser patrões de si mesmos. Falácia que não resiste à menor contra-argumentação, à mais simples observação da realidade com a qual permanentemente nos defrontamos. As provas da precarização do trabalho podem ser encontradas a cada instante de nossas vidas, faz décadas, pelo menos. O alegado incômodo por causa disso, porém, tem como resposta e expressão o agravamento das condições de trabalho, os números e relações observadas entre capital e trabalho multiplicando-se e gerando ofensivas cada dia mais aviltantes. Afinal, última das nações a abolir oficialmente o regime escravocrata, o Brasil registra atividades em nada diferentes daqueles (ainda sobrevivos) em que o pelourinho e as bolas atadas aos pés dos escravizados eram cena comum. Estudos e números relativos ao adoecimento mental atribuível às condições de trabalho dizem mais, embora sejam indiferentes aos que sequestraram o poder e usam os recursos de todos para manter o processo de acumulação desigual. Mais grave que isso, injusta. A tal ponto a perversidade concorre para esse trágico resultado, que a CLT passou a ser alvo de permanente assédio. Os jovens, além da verem reduzida sua capacidade de ganhar a vida com dignidade, são estimulados a ouvir a defesa do paraíso em que só a uns poucos é dado o direito de sobreviver como seres humanos. Por isso, a dificuldade em encontrar vez nesse mercado cuja característica mais profunda é a negação de qualquer virtude intraduzível em moeda. Depois, os generosos e cristãos (t'esconjuro!) praticam o bem (!?) a seu modo - combatendo e enfraquecendo o justo desejo de organização, além de eliminar todo sinal de resposta adequada às suas vicissitudes e carências. A escravização e os escravocratas merecem resposta à altura do grau de civilização e humanidade de que nos dizemos defensores.

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