Eras nada priscas

Vivemos, no Brasil e em outros poucos países do mundo, realidade capaz de sugerir aos historiadores relato cujo título bem poderá ser Era dos dias incompreensíveis. Não é pequena a literatura sobre a sociedade, em que os estudiosos tentam interpretar os fatos, ora considerando-os catastróficos, ora paradoxais ou extremados. Nem por isso foi possível estancar o processo em que extremismos e paradoxos têm produzido catástrofes. À polarização crescente entre correntes ideológicas nem sempre conscientes dessa condição, corresponde o agravamento da crise, em si mesma reveladora de uma das facetas da globalização. Não é apenas a transposição de costumes peculiares a certas nações que invade fronteiras e submete os estranhos invadidos. Se tudo não ultrapassasse a adoção da festa do Haloween por boa parte da população mundial, pouco se poderia rejeitar. Mas não se esgota aí o processo de penetração em territórios alheios, o principal deles controlado pelas bolsas. É delas e segundo as regras que impõem, o poder de movimentar o capital, viajante incansável de uma a outra praça, não importe a distância que mantenham entre si. Se antes era dito do capital não ter pátria, coração e alma, constata-se agora não ter ele qualquer amarra. Tornou-se, também, dono de almas, corações e pátrias, onde quer que eles estejam. Em que pesem o esforço, a verborragia e o contorcionismo mental de seus fiéis pregadores, o capital não consegue persuadir todos de seus alegados benefícios – à sociedade e ao Planeta. Os fatos, nus e crus, e em grande medida por força de avanços na tecnologia da informação, veem reduzidas as possibilidades de serem escondidos. Nem isso, porém, detém a voracidade e a violência, seja da investida pela conquista de riquezas externas, seja pelo enfrentamento dos divergentes. Bolsas de valores e forças repressivas, portanto, constituem a base em que se apoia esse processo, em permanente crise, porque dela se alimenta a expectativa da acumulação. No rastro, surgem as grandes catástrofes, das quais a pandemia da covid-19 é o exemplo.

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

E la nave...va

Aproximo-me dos oitenta e não cessa o permanente e intenso aprendizado a que me entrego, minuto após minuto, segundo após segundo, exercício como tudo o que é humano, contraditório. As lições aprendid

O deficit verdadeiro

Crer, seja no que for, parece necessidade imperiosa. As pessoas defrontam-se ao longo da vida com tantos desafios, que não têm como fugir. Movidas ora pelo desejo de compreender o mundo à sua volta; o

Sem desmentido

Recorro mais uma vez à sabedoria popular: dize-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Isso não autoriza romper laços com pessoas de quem discordamos, seja qual for o móvel da discordância. Virtude maio