Equívoco ou propósito?

Repito convicção firmada ao longo de uma vida que se aproxima das oito décadas, com mais de seis delas dedicadas a organizações humanas de natureza, objetivos e funções diversos: governos nunca erram, apenas escolhem os beneficiários de suas decisões. De nada adiantaria a estrutura administrativa que serve aos propósitos governamentais, tenham os governantes a orienta-los o interesse da maioria ou de grupos específicos. A despeito de essa segunda hipótese parecer improvável, é certo que ocorre. O que bastaria para classificar sem qualquer lisonja quem por ela se orienta. Mesmo a ignorância e a incompetência pessoal podem ser supridas, sempre que o governante por elas caracterizado tem, pequeno que seja, interesse em resolver os problemas da sociedade. Dentro da própria estrutura oficial, às vezes mesmo fora dela, o que governa encontrará profissionais capazes de suprir suas carências – permitam-me chama-las assim, para não perder a elegância – funcionais. Para tanto, porém, é exigível do governante uma qualidade nem sempre constatável nos que chegam ao poder: a segurança emocional. Sem isso, o ignorante ou incompetente tenderá a ver em cada colaborador ou auxiliar, apenas um subordinado, fantasma que lhe parece prudente evitar. A sabedoria que lhe falta, a serenidade de que é carente, o vazio que preenche seu cérebro (quando ocorre de ele o ter) acabam por fazê-lo menor do que realmente é, se comparado aos que lhe devem respeito, colaboração e acatamento. Não digo obediência porque, formado em boa escola de Direito, desde o primeiro dia do curso aprendi sobre o contraditório, em si mesmo um antídoto contra a submissão em lugar do convencimento. Sendo assim, reconheço a possibilidade de um ignorante e incompetente conduzir à solução dos problemas da maioria dos governados. Isso dependerá, porém, de pelo menos duas condições. A primeira delas, as fontes onde ele buscará os auxiliares; outra, pouco mais complexa, as intenções que traz consigo. Afinal, na cabeça do governante há de haver, sem que talvez ele mesmo saiba, uma realidade que ele se propõe alcançar. O que, num certo sentido, negaria o vazio total. Sem, insisto, deixar intacta a hipótese do vácuo absoluto. A essa realidade que a grande maioria das pessoas traz consigo e que muitas delas sequer perceba, muitos chamam utopia. Ou seja, aquele lugar desejado a que apenas ainda não se chegou. Resumo: mesmo a incompetência e a ignorância serão compensadas, se há propósitos definidos e as fontes de recrutamento são adequadas ao tratamento e resolução dos problemas das comunidades a serem governadas. Se a insegurança emocional se alia às outras duas - ignorância e incompetência -, nem a morte anunciada será contida. Por vírus ou arma de fogo.

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