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Entre equívocos e ameaças

Há muito açodamento na apreciação dos fatos, mesmo se dele estão tratando especialistas experimentados e se os comentaristas costumam pautar-se pelo respeito aos seus leitores e ouvintes. Alguns, dotados de todas essas qualidades embora, acabam por admitir certos jargões que nada têm de novidade, embora muitos os apresentem como coisa inédita. Falar em polarização agora, dando-lhe conotação absolutamente pejorativa parece-me até certo ponto uma confissão de intolerância, espécie de convite à verdade única. O avesso da democracia que todos dizem amar e defender. Um lado e outro são próprios de qualquer sociedade. E não são os que alegam adotar uma posição de centro que conseguirão esconder a vocação Maria vai com as outras. O que recebe novos nomes, a cada temporada. Os que já foram o baixo clero, integraram (e integram) os partidos de aluguel, ou ainda os fisiológicos. Daí o movimento pendular de muitos dos políticos, sendo que alguns conseguem manter um pé numa canoa, enquanto o outro está bem assentado na canoa adversária. Não é disso que se trata, ao observar a quase patética base de apoio ao atual governo? O tipo de relações mantidas entre os dois polos, até porque necessários – os polos e a qualidade das relações entre eles -, é o que deve interessar aos analistas. A não ser que a democracia festejada e usada como fator de cumplicidade desonesta seja mera figura de retórica, conversa para boi dormir, diria alguém nascido antes de 1964. Outro equívoco (assim me parece) é imaginar que os atuais oposicionistas se manterão fiéis aos seus mitos e crenças, quando as penitenciárias receberem os novos hóspedes. Aos acórdãos que documentarão a decisão dos julgadores, se sucederão os acordos (menores em qualquer sentido que se possa emprestar ao termo) habituais. A água se transformará em vinho, o vinagre saberá a doçura, raposas darão voos rasos, lobos serão travestidos em cordeiros. E a paz reinará, até que os apetites estejam todos satisfeitos e os organismos reclamem por novas prebendas. Quando traidores da pátria movem tantos corações e almas empedernidas, admitir que será diferente pode ser consequência de desatenção ou indiferença do observador. Oxalá o pai protetor, Papa Doc louro a ameaçar o mundo, contenha o dedo que pode apertar o detonador. Para gáudio dos vira-latas que Nélson Rodrigues infelizmente não pode encarar.

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