Enquanto ainda é tempo

Tenho as Forças Armadas ao meu lado e elas poderão ir às ruas. Assim teria se manifestado o Presidente da República, em passagem pelo aeroporto de Vitória, na última sexta-feira. O autor da ameaça e o conteúdo dela nada têm de inédito, nem de surpreendente. Afinal, a pregação antidemocrática e militarista é prática antiga daquela autoridade. Sua exclusão do ambiente militar, se não o afastou dos propósitos que o animaram a participar dele, favoreceu o aprofundamento de compromisso com os que, fora e dentro dos quartéis são hostis à democracia. Não fosse assim, nem ele deixaria a tropa premiado com uma promoção, nem se faria cercar de tantos seguidores, com farda ou não. Esse é o pavimento por onde o ex-capitão tem transitado, desde que, faz cerca de 30 anos, substituiu a caserna pelas casas legislativas. São dele expressões anteriores, igualmente ofensivas aos preceitos constitucionais. Não é, portanto, a primeira vez em que o atual chefe do Poder Executivo Federal desdenha do STF, este sim, o órgão republicano ao qual está entregue a custódia da Lei Magna. Mas o Presidente não tem encontrado, mesmo da parte do Supremo Tribunal Federal, a resistência que é justo todo cidadão esperar. Graças a isso, primeiro em tom de bravata inconsequente, o Presidente agride. Depois, testa a obediência servil dos que deveriam proteger as instituições republicanas, constrangendo alguns. O pior é não se constatar desconforto com o constrangimento, de que o episódio que envolveu o general-ex-sinistro da Saúde protagonizou, ao ser desautorizado diante das câmeras é o mais contundente exemplar. O desfecho da evidente agressão à Constituição praticada por Pazuello amplia o grau de probabilidade de ocorrer o que o Presidente anuncia. Qualquer resposta às reiteradas ameaças presidenciais será tardia, se não vier logo. Ou esperaremos que o vírus conte com projéteis pagos com o dinheiro de cada um de nós, para aumentar o número de mortos? Certamente, se precisarem e admitirem ir às ruas, enfrentar os brasileiros dignos e desesperançados, os camaradas do Presidente não titubearão: usar armas para quê, se elas não puderem produzir mortos?

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