ENCANTAMENTOS AMAZÔNICOS


Mais uma vez, meu amigo Paes Loureiro me prega uma peça. Da primeira vez, prometeu-me nas primeiras páginas de seu romance Café Central não mais que um romance. Ao terminar a leitura do livro, percebi ter lido mais que isso – um romance, sim! Mas também um roteiro pronto para ser levado às telas, sob a forma da sétima arte. É que o poeta é um homem de muitas artes, como todos o reconhecemos.

Agora, a quinta edição do que seria apenas uma tese de doutorado me traz a certeza de que participei de uma aula, na qual o professor discorre com facilidade e felicidade sobre temas que se tornam fáceis à compreensão dos alunos e lhes dão sensação de ser felizes, também.

É difícil não mergulhar no fundo do rio, como a Iara, ou não se deixar encantar pelos outros seres mito/matológicos tão pródigos quão intrigantes desta grandura chamada Amazônia. Aqui, o neologismo pretende mostrar que grandeza é palavra apequenada de conteúdo para descrever a Pátria das Águas, depois de ler-se o p(r)o(f)eta da Pacoca.

O que mais me terá marcado, portanto, é a forma original e rica com que o autor põe seu olhar sobre os encantados amazônicos. Não fosse ele dotado daquela amazonência (aqui, de novo, um neologismo), transcendente a qualquer outro sentimento incapaz de perceber com a vista o que parece invisível; com os ouvidos o que ninguém mais consegue ouvir; com o olfato, o que ao melhor farejador perdigueiro passaria em branco. E sai por aí, tocando com os dedos o intocável e me fazendo lembrar do Homem de la Mancha, que tocava o chão impossível. Mesmo o gosto das frutas e das poções indígenas e caboclas chegam a frequentar a boca do leitor, se ele é capaz de encantar-se, mesmo à superfície, apenas olhando o passar das águas, em cujo fundo podem confraternizar as sereias e o donjuan anfíbio.

A obra, editada pela Valer, de Manaus, talvez marque o ápice de uma trajetória editorial, mais que a carreira do meu amigo poeta. Porque a cada nova empreitada, mais ele se firma como profundo conhecedor, das rimas e da região, de suas gentes e seus encantados.

Já no prefácio, a filósofa Neíze Teixeira mostra a originalidade da abordagem proposta pelo

autor, para ela, muito mais que um poeta, um profeta. Afora a indiscutível beleza da prosa (poética, sempre), Paes Loureiro acrescenta conceitos sequer timidamente tentados por outros. É o caso, por exemplo, da apreensão do que muitos chamam preguiça do caboclo como sua forma simbólica de enfrentar a realidade com a qual convive e da qual faz parte.

A seguir, Octavio Ianni, amigo e mestre de Paes Loureiro, dá testemunho da sabedoria com que o poeta/profeta percebe a arte como uma forma de conhecimento. Das mais ricas – diga-se. Porque não se contém nos limitados espaços da ciência e sob os grilhões de uma suposta racionalidade. Manda às favas as três dimensões, tratando das outras, que se não existem ele faz existirem. Sua imaginação é poética; sua poesia é imaginária em toda sua concretude. Também coube ao saudoso professor da UNICAMP mostrar o caráter plural da narrativa de Paes Loureiro.

Talvez muito pela intimidade com a natureza amazônica, muito pelo comprometimento com os que considera seus iguais, e o permanente esforço por compreender o mundo, em especial o mundo que o cerca desde que a ele veio, Jesus (é assim que eu e outros amigos o chamamos) dois milênios separando-o do homônimo dito divino, prefere carregar nos ombros a tarefa de desfazer equívocos, alertar sobre os perigos e resgatar as maravilhas e as magias que a região encerra.

Melhor passar logo ao que diz o autor. Porque nas mais de 400 páginas do livro, o que se vai encontrar é material farto para os que têm sede de saber. Mais, ainda, para os que desejam saber da Amazônia mais que os seus sabores, os seus saberes. Ela também capaz de produzir, no aparente ócio e na preguiça que tem sido atribuída aos nativos, páginas das mais belas – quase diria da literatura – da vida. Da vida de qualquer um, principalmente dos que entendem esse traço de união entre o nascimento e a morte mais que mero fenômeno biológico. Para isso serve o testemunho que extravasa do estreito círculo da ciência e vai buscar os recursos do sentimento e da emoção. Uma e outra coisa como exigem certa disposição e seguro exercício simbiótico, ao final do qual não se conhece menos que uma realidade sem fraturas, no caso amazônico, com muitas farturas. Não fora assim, a região não se caracterizaria por sua grandura, deixando-se ficar na contemplação exclusiva do mero espaço geográfico e dos bens materiais que ele pode conter. E que ninguém consegue sequer contar.

Mas não é só de emoção que nos fala Jesus. Diante dos desafios e da dimensão de tudo quanto mereça o adjetivo, o amazônico é exigente de mais, se desejamos chegar ao mínimo que seja de sua compreensão. Ao desafio só se consegue responder, se a criatividade for grande, permanente, sem preconceitos. Tal condição valerá, sempre que não for pequena, como disse outro poeta.

Não há como criar, se o imaginário for deixado de lado. Imaginar, assim, é mais forte que simplesmente pensar. O exercício pensamental quase sempre responde às coordenadas conhecidas, porque o pensamento tem sido associado ao método. E nem sempre o método está pronto e acabado, cada coisa e cada fenômeno exigindo maneiras próprias de ser vista, analisada, alterada.

Do outro lado, a poesia também não dispensa a imaginação. No caso da Amazônia, como o p(o)e(f)eta deixa claro, a poética faz parte do próprio ambiente, povoado de provocações imaginativas. É como se houvesse certo acordo, certo parti pris – eu te provoco, porque tua presença me provoca; eu te respondo, para que também possas a mim responder. Um jogo altamente dialético, em que as duas partes buscam o ajustamento entre a necessidade de viver, de um, e a permanência do outro. Acaba que um se perpetua porque dialogou com a outra.

A natureza, tida por eterna, como que impõe ao seu interlocutor, o caboclo, a obrigação de eternizar-se. Não pela ingestão de alguma poção milagrosa, se não pela perpetuidade dos sentimentos e das relações tecidas pelos protagonistas. A grandura de uma, face ao suposto ócio do outro, ao invés de esterilizar o nativo, desafia-o a superar-se; chama-o à superação de suas dificuldades; convida-o a desvirginar a floresta, violar os rios, penetrar os alagados. E fazer-se, a um só tempo, agente e paciente de um casamento que perdura há milênios e ainda há de perdurar por outros tantos. Se os homens atentarem para a poesia e a poética gerada pela imaginação, como o acentua Paes Loureiro.

Por isso a dificuldade dos que, preconceituosos ou apenas desatentos, teimam em olhar “de fora” para a região. Não porque aqui não tenham vindo ao mundo. Mas pelo que trazem no olhar viciado, amarrado a circunstâncias diferentes, gentes diferentes, costumes também. Basta mencionar o papel que os rios desempenham, mesmo na percepção e consideração do tempo. O tempo daqui não é o tempo dali.

PORQUE AINDA NÃO TENHA ULTRAPASSADO A PÁGINA 300, NEM TENHA APANHADO AS ANOTAÇOES ALÉM DA PÁGINA 125, CONCLUIREI ESTE TEXTO DEPOIS.

Manaus, 19 de agosto de 2015.

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