Emoção sem efeito

Certas manifestações dotadas de enorme generosidade percorrem, nestes dias de infortúnio, bons e maus caminhos nas redes antissociais. Quem, como eu, busca situar-se no tempo e no mundo como ele é, certamente se comoverá com tanta boa vontade. Não se deixará envolver, porém, com tamanha ingenuidade. Ainda agora, ouvi mensagem que a alia ao bom uso do português (coisa rara) postura extremamente generosa. No que nem sempre é correspondida por muitos outros. É o caso dos que veem na queda das bolsas, não na morte de tantos - pelo vírus letal e, antes dele pelas armas da desigualdade -, o grande problema. Daí o recheio das manifestações generosas ser o desejo de que, individualmente, seja resolvido o drama de todos. Os bons motivos e sentimentos não conseguem superar a auto-atribuição de culpa a cada um, não a todos. Nem só por suas ações egoísticas, mas pela omissão no espaço coletivo. O que reclamamos, pelo menos eu e alguns milhões de outros seres humanos mundo afora, é por políticas públicas que sobreponham os interesses coletivos aos interesses individuais, sempre menores. Aceitar a proposta de dar a esmola de cem reais (é essa a importância mencionada pela boa alma que acabo de ouvir) suspeito até que já nem garante a subida direta para o céu. Nem a Igreja propõe ou defende esse tipo de ação. Talvez lembradas de Lutero, as lideranças católicas sabem lidar melhor com os problemas terrenos. Como seu inspirador e Pai ensinou. A porta do templo de Jerusalém não me deixa mentir.

Pois bem; sejamos generosos sim! Mas de uma generosidade que não se apoia na miséria do outro, na sua multiplicada necessidade, na desesperança de que é presa. Por isso, emocionado com a mensagem ouvida, tendo os ouvidos plenos de seu som, prefiro lembrar não vivermos mais em tribos. Para conter a ganância, limitar o egoísmo e promover o bem-estar de todos existe o Estado. Dirigido pelo que tem boa vontade ou não; conduzido pelo culto ou pelo ignorante; inspirado por Jesus ou por Lúcifer, dele nada devemos pedir, mas exigir. Não de joelhos, mas de pé. Não aos sussurros, mas bradando. Não recolhidos à nossa própria segurança. É certo que a pandemia seria mais fácil de superar, se mais cedo se tivesse manifestado a generosidade de muitos. Ainda assim, havemos de reconhecer a dificuldade de desviar a atenção para outro deus que não seja o dinheiro, quando acumular á o objetivo de vida da pessoa.

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