Em direção ao SUS tentado.

Poucas políticas públicas terão sido mais promissoras que o Sistema Único de Saúde, o SUS. Aplaudido e respeitado pela comunidade científica e por organismos internacionais , o incômodo dos que a ele jamais recorrerão acabou por promover o processo de desmantelamento que ele enfrenta nos últimos três anos. A tal ponto, que Michel Temer conseguiu impedir investimentos em educação e saúde, por vinte anos. (Não há exagero, 20 ANOS!). Pavimento do caminho percorrido por Jair Bolsonaro, a medida docemente aprovada pelo Congresso foi surpreendida pela covid-9. Na surpresa, mais uma das consequências do desmantelamento do Estado e do processo de destruição dos serviços públicos no Brasil. O delenda status avançava célere, para alegria e festa da voracidade dos ganhadores de sempre. Aqueles mesmos que nunca frequentaram um posto de saúde pública ou necessitaram de serviços médicos. Por que e para que gastar dinheiro com a saúde pública, se há bons hospitais e profissionais em outros países? São os mesmos que mandam seus filhos para escolas privadas e que não têm uma só palavra de reconhecimento pelo trabalho mais que meritório dos profissionais de ambos os setores. Para ficar apenas nesses dois, embora se saiba que o desmonte da máquina pública não poupa qualquer setor de cuja atuação depende a qualidade de vida da maioria pobre da população.

Aí, vem o vírus e exige sejam abertos os olhos que preferiram a cegueira, porque a escuridão em nada lhes afeta. Morrer é natural, morre mais gente atropelada ou assaltada - dizem as vozes de sempre. Pouco se lhes dá que morram até trinta mil, o número preferido. E mais e mais... Até o momento em que são forçados a enterrar seus próprios mortos. Então, abrem-se as algibeiras. Delas escorre riqueza em grande parte espúria, não raro acumulada graças ao sacrifício dos que deram o próprio suor para fazer ricos os que os exploram. Quando não tem sua origem nos cofres públicos, recheados do que resultou do trabalho árduo dos outros, jamais deles.

Há quem, negligente quanto à História e às virtudes e vícios do ser a que se chama humano, veja na atual pandemia o renascer da sociedade humana. Antes fosse! Não é essa a tendência, quando vemos pessoas protegidas em seus belos carros trafegando espalhafatosamente pelas cidades, pedindo que cessem as medidas de proteção aos outros, os que de fato trabalham e são os primeiros a deixar sua contribuição aos cofres públicos. Pergunte-se quantas vítimas morriam nos hospitais, sufocados, enquanto à porta desses estabelecimentos as buzinas davam o tom trágico da pandemia! Aos agentes de Caronte isso não importa. Afinal, lá dentro não há ninguém com seu nome, sua simpatia, sua classe social.

O fim e ao cabo, é ao SUS que deve ser atribuído o mérito do enfrentamento nesta guerra desigual. Achincalhados, desrespeitados, ameaçados nos seus direitos, médicos, enfermeiros, atendentes e demais profissionais da área da saúde têm sacrificado a própria vida, para que outros não morram. O vírus tem matado muitos desses abnegados servidores públicos, a despeito dos que sempre tentaram desvalorizá-los. E o SUS é a bandeira sob o qual se abriga essa importante força de trabalho, não importa quanta vezes rota pelos que são não mais que inimigos da vida e dos que a têm.

Qualquer que seja a justificativa, qualquer o pretexto utilizado, se a esmola oferecida pelos oportunistas de sempre ficar só nisso, e o SUS não for prestigiado, defendido, ampliado e

fornido das condições ideais para executar sua bela missão, não se poderá contabilizar a mínima compensação para a dor que sofrem as famílias brasileiras. É a derrota total - não do Estado, mas da humanidade.

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