Egoísmo no atacado

Manaus talvez tenha sido a primeira cidade a registrar uma das formas mais ignóbeis do egoísmo humano, nesta fase de pandemia. Aqui, pessoas desprovidas do menor senso de humanidade furaram a fila da vacinação, para isso contando com a cumplicidade de outras pessoas revestidas pela mesma casca de egoísmo, e hospedeira dessa feia desvirtude. Depois, foi o que se viu, em muitas outras cidades brasileiras. Ao ponto de se igualarem o desamor pelo próximo e a estultice, como o episódio ocorrido na garagem de uma transportadora, em Belo Horizonte o revelou. Lá, é bom lembrar, foi aplicada uma vacina possivelmente falsificada, se não imunizante furtado de alguma unidade pública de saúde. O perfeito casamento entre o egoísmo e a marginalidade, praticado no interesse dos que se dizem espertos e sagazes. Enfim, prova evidente de que esperteza não é inteligência, nem nossa economia está imune à ação do que de pior a espécie dita humana é capaz de produzir.

Agora, a pretensão dos prósperos é furar a fila de vacinação no atacado. Já, certamente, com os cuidados que seus iguais mineiros não tiveram. Os daqui, todavia, não estão sozinhos. Ajudam-nos até mesmo representantes populares, nem sempre isentos da estultice dos de lá. Como se tivessem conquistado mandatos para beneficiar pequeno grupo de eleitores, não todos os que asseguram seus rendimentos honestos (mas não sempre!). Não se pode entender o propósito de assegurar a vacinação dos que restam empregados no setor privado, enquanto a população conta cada dia maior número dos sem-emprego, senão como a forma de furar fila por atacado.

Não basta constatar a disseminação do exemplo, ainda mais quando procedente de autoridades supostamente voltadas para o bem público. A não ser como réplica de conduta imbecil e submissa, que reduz as relações humanas ao binômio ordem-obediência. É preciso, também, apreciar a conduta das lideranças empresariais e aos políticos que lhes dão apoio e, em última análise, a conduta dos indivíduos, à luz dos mais elementares preceitos de humanidade. E, em consequência, do humanitarismo como ele é proclamado, defendido e raramente observado.

Se furar a fila revela a má índole do fraudador e leva à sua identificação com qualquer malfeitor, quando o ato é tentado da forma como reivindica parte do empresariado, maior a gravidade do delito. Imoralidade, apenas, para alguns. Em qualquer hipótese, desumanidade.

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