...e utópico, com muita honra!


Sem saber sequer como aparece e nos maltrata o coronavírus II (assim manda-se titular os coroados), nem qual a extensão de suas consequências, profetas, pitonisas e futurólogos desdenham da mortalidade genocida da covid-19 e desenham um mundo de Alice.

Quanto eu gostaria de juntar esperanças ao mundo maravilhoso antecipado por muitos dos que se têm manifestado! Até nas redes antissociais, veículos por onde transitam o ódio, a perversidade, a mentira, acontece de, excepcionalmente embora, encontrar-se mensagem supostamente destinada a trazer paz ao espírito, solidariedade à atitude, amor à humana conduta. O retrato do que faltou dizer no período acima – a hipocrisia. Faz poucos dias, senti-me obrigado à releitura de Augusto dos Anjos. Não que eu seja pessimista, como sabem todos os que um dia estiveram próximos de mim. Ao contrário, alimento minhas utopias, por absoluta convicção. E testemunho. Aceito – mais que isso, reivindico – as pechas de utópico, radical e teórico. Os que um dia estavam dentre os infelizes forçados a ouvir minhas aulas sabem muito bem do que estou falando. Os outros que não fizeram nada para merecer tamanha punição, logo o saberão. Todos os grandes líderes, religiosos ou não, foram movidos pela utopia, esse lugar ao qual ainda não chegamos, mas existe com certeza. Temo-la voando sobre nossas cabeças, levada pelo avião imaginado desde Ícaro e projetado por Leonardo da Vinci e Santos Dumont. Chegar lá é o grande desafio, irrespondível se não superarmos os limites de uma vida miserável, indigna, desumana. E não digo aqui da miséria física, imposta pela fome cultivada, pela competição selvagem, pela generosidade feita sucedâneo da fraternidade. Viva a utopia! E os que nela acreditam. Mais ainda aos que se dedicam a torna-la alcançada. Lembrava aos meus alunos: radical não é o oposto de extremista, mas de superficial. Quem não busca a raiz, as causas e as motivações, seja lá do que for, será condenado a sucessivas frustrações. Verá tudo e todos à voo de pássaro, rápido, fugaz, mantendo olhos e cabeça no polimento da superfície, não na matéria, substância do objeto observado. É-se radical, portanto, quando o fenômeno não se esgota na observação de sua aparência, da maneira de mostrar-se, não na maneira de ser. Sejamos radicais, se desejamos merecer o respeito e a estima dos que não se deixam levar pela hipocrisia! Lembro-me do sorriso, não raro gargalhada, dos alunos, quando eu afirmava nunca ter visto um porco ou um cachorro teorizarem sobre algo. Parece-me, dizia e o repito agora, que a teoria é dos mais altos exercícios do raciocínio conferido ao homem. E, por enquanto, só a ele. Da relação homem-objeto (coisas, terras, gentes) é que se constroem as grandes teorias. Tão mais instigantes, interessantes e respeitáveis quanto maior o balaio de dúvidas que põem em nossas cabeças. Tenho na memória o exemplo que dava, recorrendo à lenda que cerca a teoria de Isaac Newton. A observação de maçãs despencando da árvore que as produz, repetidamente, fez o judeu genial elaborar uma das leis mais importantes da Física. Tudo para dizer aos meus alunos da falsidade do proclamado dilema teoria versus prática. As fake-news, tão em voga nestes trevosos tempos, são excremento. A nada correspondem, a não ser a mentes miseráveis, sujas, conspurcadas, por isso incapazes de superar a ignorância e inaptas ao acolhimento do amor.

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