E o mercado?


Súbita generosidade explode dos corações endurecidos por séculos de exacerbado egoísmo. Apóstolos da usura, bravos guerreiros da desigualdade vestem, apressados, o traje da hipocrisia. Sem nenhum pudor, aproveitam a tragédia montada no lombo do coronavírus para simular solidariedade escassa ao longo de suas vidas. Tudo, obviamente, coberto da mais ampla divulgação. Tentam a todo custo inverter o celebrado verso de Augusto dos Anjos. A mão acostumada a explorar o suor alheio e condenar semelhantes, que não reconhecem como tal, às mais indignas condições de sobrevivência, finge-se portadora do afago jamais praticado. Então, as algibeiras abertas ofertantes de ignominiosa esmola tratam de emitir sinais da cobrança que o amanhã trará. Impossível admitir hipótese diferente, quando esses falsos e oportunistas investidores são parte do exército econômico encontrado na origem de todos – TODOS, acentuo, em caixa alta – os problemas de que hoje padecemos. Sua aposta não é apenas a de que, logo à frente, os cofres para onde flui parte dos ganhos dos que trabalham duro, lhes satisfarão o apetite voraz, absolutamente despreocupados das agruras por que passam os outros. Assim tem sido, as circunstâncias atuais e a conduta de boa parte dos protagonistas não dão o menor sinal de que assim não mais será. O indigno teatro da indignação, repetido em palavras e no cenho hipocritamente construído já não engana quase ninguém. Sobram apenas, dentre os incautos, os ingênuos, os oportunistas por necessidade de sobrevivência, os ignorantes por opção e aqueles aos quais a natureza privou o uso da inteligência tão mal distribuída. Nessa ordem sucessiva de proporção na grei fanatizada.

Dos mais legítimos proclamadores do deus lucro nos diversos templos da religião mercado, recebem-se manifestações dirigidas ao público em geral, como se dentre eles a maioria – não a ínfima minoria – ostentasse os mesmos valores e interesses da inominável grei. Parece-me a mais perversa, soez e mendaz a crítica à majoração de preço de produtos essenciais à proteção contra o outro vírus, concorrente dos vermes endeusadores das leis do MERCADO. (Também em caixa alta, se me entendem).

O que diz a lei máxima desse catecismo baseado no ódio, no desamor à vida? Não responderei. Deixarei a critério dos sacerdotes dessa religião, se eles forem capazes de dizê-lo, mesmo com a máscara de pano que lhes cobre temporariamente o rosto. Da outra eles jamais poderão desfazer-se. Em vida...

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