E daí?

Antes da chegada do coronavírus, já estava em marcha batida a escalada autoritária liderada pelo ex-capitão Jair Messias Bolsonaro. As dificuldades econômicas começavam a pôr em dúvida os resultados anunciados pelo posto Ypiranga instalado no Sinistério da Economia. A recuperação do emprego, a entrega do patrimônio público a especuladores estrangeiros, a reforma da previdência, tudo isso dava sinais de fazer água. Incompetente para ao menos entender a realidade nacional mais aparente, o Presidente da República acelerou a caminhada em direção ao passado. O funesto passado que durou 21 anos pareceu ter visto chegar sua hora. Afinal, se alguma coisa das poucas prometidas - se não a única – pelo candidato, a restauração da ditadura terá sido a mais sincera. Se nos detivermos em apenas dois dos compromissos mais reiterados antes pelo candidato, agora pelo Presidente, e compararmos os dois momentos, veremos que o vigor das new-fakes equilibra-se com a persistência das promessas. Refiro-me à tentativa de romper a ordem constitucional e a de ocupar a máquina burocrática com egressos dos quadros profissionais que o excluíram. Nesses dois itens se tem concentrado o esforço do Presidente, desde o primeiro dia de seu desgoverno. Porque se vinham tornando frequentes as manifestações ofensivas à democracia, adverti os escassos leitores de meus artigos sobre as ameaças que pairavam (e se acumulam) sobre a ordem democrática. Essa, no meu entendimento, a prioridade absoluta com que nos deveríamos preocupar, os que preferem a liberdade à opressão. Encontrar formas de resistir à insana volta ao passado, à opção pela barbárie deveria preocupar-nos prioritariamente. Convenhamos ter havido certa negligência dos democratas, alguns imaginando que Bolsonaro seria contido pelos generais de que se cercou. Não tem sido esse o caso. Ao contrário, nem todos os oficiais superiores convocados por ele sentem-se animados a contê-lo. Ou porque simplesmente pensem (?) como ele, ou porque já tenham se acostumado com aquilo que o ex-Presidente José Sarney chamou, com seu indesmentível sotaque maranhense, o “gostinho do puder”. Se não for por coisa pior.

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