Dubiedade e vergonha


Mesmo quando reconhecem estar no caminho errado – e talvez por isso mesmo – certos analistas acabam por agravar ainda mais as reservas que seus pares alimentam sobre eles. Convicções raramente mudam em tão pouco tempo. Sobretudo se resultam de preconceitos, interesses pessoais e posições ideológicas inafastáveis. Lê-se o que eles escrevem ou se ouve o que dizem em palavreado nem sempre inteligível, sem que melhore a imagem prolongadamente construída e projetada. Daí verem-se profissionais vigorosamente arraigados aos ideais liberalistas tentando mostrar-se sensíveis às desigualdades sociais com que convivem. Quase sempre, isso acaba por trazer à cena o que eles cuidaram de guardar a sete chaves dentro de si mesmos. Sabendo-se defensores da ordem social injusta, deparam-se com a injustiça e procuram a todo custo levar-nos à crença de que superaram seus preconceitos, seus interesses e posições de classe. Mas, quase sempre, o gato deixa o rabo exposto. Isso me vem à cabeça, após ler atentamente artigo publicado na Folha de São Paulo, edição de 01-07-2020. À guisa de discutir os efeitos da crise sanitária sobre a economia, Solange Srour aborda os problemas a isso relacionados, mas não consegue desvencilhar-se do que está na cabeça dos que veem o mercado como o deus ao qual todos devemos obediência. Sabe-se quão é difícil servir a dois patrões. Como desejar a superação da desigualdade mantendo certos privilégios de que desfrutam os mais ricos? Como pretender a solução dos problemas sociais, se não estamos interessados em remover as suas causas? É mais ou menos isso o que encontrei no texto lido. De um lado, a comemoração do resultado que à economista parece façanha digna de festejo: a queda do risco-Brasil, seja lá o que isso for. Ao que me consta, não aumentaram nossas chances de entrar no reduzido grupo da OCDE, como não foram atraídos os capitais que todos dizem interessados em investir no País. Nem me parece que tal queda tenha sido acompanhada da ampliação das exportações ou evitado a retaliação de importadores estrangeiros aos nossos produtos. Do outro lado, as políticas agressivas aos direitos dos trabalhadores são aplaudidas, ao mesmo tempo em que os debilitados programas sociais são condenados.

Merece de mim mais respeito quem defende o mercado e, por mais infame que isso seja, assume a adesão ao credo desumano que ele exige, que os outros, que desejam passar-se por bonzinhos, escondendo o que realmente os move. O homem vale pelo que faz, não pelo que diz. Ou escreve.

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