Duas misérias

Não bastassem as inúmeras maldades já cometidas contra a Educação, o (des)governo lança balão de ensaio tão ao seu gosto e vocação. Agora, o seccionamento das universidades públicas está no balcão de negócios. Dizem que esse é assunto que interessa ao apetite voraz do chamado centrão – não mais que um centro comercial onde a mercadoria corresponde aos vícios humanos reunidos e à orientação marginal cultivada. Essa gente desavergonhada é a mesma que o general Augusto Heleno, hoje um convertido, disse que correria, ao grito dito com inegável eufemismo: se gritar pega o centrão, não fica um – lembram-se disso? Pois bem. Não terá bastado o intenso e absurdo fluxo de recursos públicos para a proliferação de estabelecimentos onde a instrução e adestramento (porque de educação não se trata) são instrumento da exagerada multiplicação do patrimônio físico dos que exploram o setor, a fome voraz avança sobre o que resta de estabelecimentos públicos de educação superior, locais de onde procede a grande maioria das conquistas científicas nacionais. Isso tudo, quando alguns dos maiores inimigos da Ciência recebem o galardão do Mérito Nacional. Num caso, assinatura firmada em pretensão descabida, pois o favorecido não só tem ofendido as evidências científicas, quanto perseguido os que se dedicam à produção da Ciência e prejudicado de toda forma e em qualquer oportunidade, o ambiente em que seu trabalho é realizado. Aqui, não se trata de dois pesos e duas medidas, mas de um peso crescente, através de variedade de medidas, nenhuma delas afinada com o propósito de resolverem-se nossos mais graves e persistentes problemas. Ao contrário, quando mais as instituições públicas de educação precisam de verbas e apoio institucional, mais lhes desaba sobre os ombros (e os de seus dirigentes, um deles levado ao suicídio) o peso dos constrangimentos e das restrições, não só orçamentárias, como se tem testemunhado. Esperar diferente, porém, só ocorreria aos néscios de toda ordem, tantas as evidências divulgadas antes do pleito de 2018. Da parcela que ajudou a construir esta fase de nossa tragédia participaram quase 60 milhões de brasileiros. Dentre estes, inexpressiva minoria já vê prejudicados seus próprios negócios, mesmo que, por ação ou omissão, venham ajudando a eliminar fisicamente boa parte da população. São apenas os beneficiários diretos da covid-19. Esta, portanto, passou a ser apenas auxiliar na campanha permanente de destruir tudo quanto dê sinal de Vida. Os miseráveis políticos e morais não podem sofrer a concorrência dos que eles fazem miseráveis materiais.

6 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O brasileiro comum mal se reconhece nele mesmo. Por muito tempo iludido quanto à imagem de cordialidade e disposição para o entendimento, bastaram-lhe menos de quatro anos para ver-se de modo diferent

Todo ano, a mesma coisa. Todos sabem da subida das águas e dos sofrimentos impostos aos habitantes da maioria das cidades amazônicas. As cenas emitidas pelas redes de televisão ganham o Mundo e estarr

Conhecedor precário do fenômeno, vejo a polarização ser criticada sem encontrar algo capaz de levar à razoável compreensão das relações que o causam ou nele interferem pesadamente. A observação dos fa