Dr. Guillotin e suas artes

A História do Brasil é marcada por rupturas institucionais. Chamados golpes de estado, esses momentos, por sua frequência, parecem doença crônica a que nem todos os estudiosos têm emprestado sua judiciosa atenção. O resultado é a incapacidade de resolvermos nossas divergências segundo padrões civilizados. Se não, ao menos contemporâneos. Volta e meia, vêmo-nos diante de crises como a de agora. Creio, porém, que esse não é fenômeno exclusivo desta infelicitada nação. A História Universal parece reproduzir o que Lulu Santos, em momento de excepcional inspiração, deixou registrado em sua canção Como uma onda no mar. Um conceito muito próximo do que chamo organização dialética do Universo: onde há sol há lua; havendo noite há de haver dia; reconhece-se a ignorância porque existe ciência; a existência do amor é constatável porque seu contrário é o ódio. Enfim, por enquanto só há um caminho sem volta – a morte. É quase inacreditável, porém, que um país com a importância do Brasil ainda experimente as angústias e o desassossego por que passa um adulto acometido de sarampo. Como uma doença crônica ao mesmo tempo anacrônica. Mais um componente dialético da organização universal? Vá eu saber...

Decorrido mais de um século, desde que pensáramos ultrapassado o Império, convivemos com problemas semelhantes aos que afligem nações mais jovens e menos expressivas no contexto internacional. É escasso o sentimento de cidadania entre nós. A defesa dos direitos individuais não tem a mesma força revelada em sociedades mais avançadas. Os governantes, a despeito de consagrados pelo voto popular, uma vez instalados no poder pensam desatados os legítimos nós que os deveriam vincular crescentemente aos governados. Isso tudo - e não só – gera a sensação de que o Poder Executivo, e só ele, é superior aos demais poderes. Assim, rui a proposta de Montesquieu e a república não vinga no solo brasileiro.

A crise política ora em marcha está longe de ser produto ou desaguadouro da crise sanitária. Suspeite-se de que o contrário, pelo menos quanto aos efeitos ou impactos, está mais próximo da verdade. Outros países estão às voltas com a covid-19, sem que se tenham abalado os alicerces da organização política. Ao contrário, a solidez das monarquias residuais europeias e a maioria das repúblicas europeias e americanas tem assegurado respostas exigidas pela pandemia. A despeito da inconsistência dos conhecimentos sobre o novo mal, de alguma forma e na medida das possibilidades de cada país, têm-se obtido respostas promissoras. Às vezes, como aqui, sujeita à hostilidade governamental. Ou, para não ser injusto, ao ódio do Chefe do Poder Executivo.

Testemunha no esforço dessa mesma autoridade em implantar clima propício à realização de suas antidemocráticas, odiosas e odientas, e macabras intenções, não posso esquecer do Brasil do passado. À frente de quantos odiavam a república e rejeitavam a democracia, Carlos Frederico Werneck de Lacerda era a voz mais forte pela quebra do regime constitucional. Grande orador e jornalista, Carlos Lacerda teve seus direitos políticos cassados e, como antes Robespierre perdeu a cabeça na funesta invenção do Dr. Guillotin, viu guilhotinado seu projeto político. Fiel a esta ordem de ideias, não custa apontar na direção de Gustavo Bebbiano (in memoriam), Janaína Paschoal, Sérgio Moro, Paulo Marinho...o espaço, aqui, não é recurso inesgotável.

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