Dois acontecimentos

Atualizado: 24 de Set de 2019

Os brasileiros e todos os que se distribuem nos oito milhões e meio de quilômetros quadrados, mais que os habitantes de outros países, devem atenção a dois eventos que serão realizados, um no Vaticano, outro em Nova Iorque. Refiro-me ao Sínodo convocado pelo Papa Francisco e à Assembleia Geral da ONU. O primeiro destina-se a discutir os compromissos dos católicos, mas não só deles, com o destino da Amazônia. Por isso, e pelo assédio que a maior região de florestas tropicais do Planeta atrai, é preciso estar atentos. Do Sínodo resultarão recomendações sobre as atividades religiosas da Igreja, felizmente orientada por valores que todos dizem cultuar, embora raríssimos os tenham subjacentes em sua conduta. O outro evento, anual, coloca a sociedade planetária a par das relações entre os países, seus governos e as dificuldades de cada um.

Se o Sínodo incomoda os conservadores, a ONU não tem sabido administrar os conflitos gerados, sobretudo, pela desigualdade reinante no Mundo. Esta, a desigualdade, num caso e no outro, serve como pano de fundo, incapaz de esconder o problema fundamental da sociedade do terceiro milênio: a forma e as proporções da distribuição da riqueza - entre pessoas e nações.

Sucessora da Liga das Nações, a Organização das Nações Unidas não tem conseguido - se é que o tem tentado - tornar melhor a distribuição da riqueza. Ao contrário, seus mecanismos encontram pouca oportunidade de exercício e, quando o encontram, veem-se rejeitados. Decisões do Conselho de Segurança têm sido ignoradas por nações que se ensimesmaram, a despeito do reconhecimento unânime da globalização como um processo abrangente. A emergência de uma opinião pública interessada em preservar condições mínimas de sobrevivência das populações determina a ênfase posta nos problemas ambientais. É nesse ponto que a assembleia da ONU, antecedida da cúpula sobre o clima, converge com o Sínodo.

O Brasil, desta vez, participa bastante fragilizado. Nada que leve a crer na impossibilidade de reverter posições ou recuperar o respeito que granjeou, a ponto de ser o Presidente brasileiro o orador de abertura da reunião da ONU. Mas os antecedentes, remotos e recentes, não dão muita esperança de que será tão fácil. Ao contrário, a agressividade com que as autoridades brasileiras vêm tratando das questões ambientais e a transparente incapacidade de vencer o ódio e recolher o retrovisor comprometem a imagem do País. Retiram, portanto, até a boa vontade dos participantes, governos e populações.

Já no Sínodo, estarão influentes religiosos que atuam em todos os continentes. A liderá-los, um sacerdote que tenta fazer segundo o recomendam os valores propostos pelo inspirador da fé por ele professada: o amor, mais que tudo.

Em resumo: é preciso que nossos governantes vejam a Amazônia, o Brasil portanto, com a importância que as outras nações lhe conferem. Corresponder a isso não significa subordinar-se aos interesses deste ou daquele país, desta ou daquela ideologia, do interesse deste ou daquele grupo. Quer dizer apenas que talvez jamais tenhamos tido tamanha oportunidade de afirmar nossa posição no Mundo, nossa capacidade de gerar soluções para nossos problemas e o direito de seguirmos em busca de reduzir - eliminar seria o ideal - a desigualdade que nos marca, como pessoas e como sociedade.


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