Doenças crônicas

Estes dias de quarentena exacerbam nossa imaginação. Fazem-nos mais cuidadosos e curiosos com as entrelinhas. Pois não é nela que se escondem os aspectos mais ameaçadores? O isolamento social, a obrigação de ficar em casa, o vício da leitura e o correspondente hábito da reflexão levam-nos a ver o panorama geral, não apenas a árvore plantada na véspera na selva de nossa imaginação. Faz quase 60 anos, testemunhávamos o até então mais agressivo ataque à ordem constitucional de que se tem notícia. João Goulart, eleito como o foram os Presidentes da República desde Fernando Collor de Mello, ainda estava em território nacional, mas os golpistas o declararam ausente do País. Talvez a primeira fake-news de nossa História. Precursora. Depois disso, quando a tortura e o assassínio dos divergentes transformados em instrumentos do Estado cessara, logramos voltar a um regime constitucional. A doença da prostitucionalização, de que o AI-5 é o documento-mor, esgotara-se. De lá para cá, 1990, tivemos dois Presidentes postos fora pelo impeachment, nem sempre configurado e comprovado o crime capaz de levar a esse remédio amargo. Também vimos dois ex-Presidentes serem presos, em curiosa parceria: um golpista e outro tornado inimigo dos que deram o novo golpe. Era ele a pedra no sapato dos que insistiam em infetar a sociedade do mais primário autoritarismo. Comparo a covid-19 com as práticas políticas e me ponho à frente de doenças crônicas, uma a corroer o pulmão das pessoas, outra a desgastar a incipiente democracia que teimamos em ver implantada de fato e consolidada no País. Sem que se chegue ao remédio que cura ou à vacina que nos imunize, tornando-as definitivamente erradicadas deste país-continente, E me ponho a sopesar: qual a pior - a pandemia ou o pandemônio?

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