DO VIÐENJA JUGOSLAVIJA

Atualizado: 7 de Fev de 2020

Carlos Eduardo Faria*

Creio que muitos não reconhecem tua verdadeira história, Jugoslávia, mas quem sabe, outros muitos por aí, consigam te entender. Lembro-me das noites que passávamos vendo as lindas águas do Danúbio desaguarem no litoral romeno banhado pelo mar Negro. Foram ótimos tempos. Andávamos com nossos mundos de mãos dadas, sempre buscando um meio de melhor ser, conviver e de construir uma melhor sociedade, uma pela qual pudéssemos ser humanas e justas.

Entretanto, não sei como pude ser capaz de lhe deixar só nessa terrível situação. Eslovênia, Croácia... Macedónia... Deve realmente, ser indescritível a sensação de ir perdendo suas irmãs assim, elas eram como partes de seu corpo. Costumo recordar de como tu falavas delas, e que as amava, até mesmo nos momentos mais difíceis em que puderes passar. Jamais terei capacidade de imaginar que minhas estrelas perdessem suas pontas uma a uma.

Onde eu estava quando o teu vidro trincou? Eu não possuo palavras que expressem minha tristeza pelas suas baixas. Pois, não são apenas suas, irmã. Todos nós retemos uma parcela da culpa por cada vítima da chuva de chumbo que vieram pelas baionetas, ou pelos trovões de morteiros e granadas. Apesar disso, agora eu sou capaz de entender que tu as amava, mas elas, por outro lado, não se amavam. E cultivavam ódio uma da outra desde antes talvez, do arquiduque Francisco-Ferdinando...

Lembro-me também do dia em que tu chegaste a mim e me contara sobre teu novo nome. Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos se bem me lembro, afinal, isso foi em 1918 não foi? Estive com você, em 1929. Quando houve o “crash” da bolsa de Nova York, e passamos por dificuldades financeiras, não podíamos sair muito para visitar as montanhas, mas, superamos, e você, com novo nome, tinha orgulho em ser chamada de Reino Da Jugoslávia!

Sofremos bastante sob as mãos dos países do eixo durante a Segunda Grande Guerra, mas não desistimos até que nosso esforço foi recompensado quando Josip Tito apareceu. Que nos mostrou uma nova forma de ver o mundo, e nos fez uma nova nação, desta vez, uma República Popular! Mas, após muitos anos de história com os quais tivemos a felicidade compartilhar, chegaram as trevas da nossa Idade Média. O dia em cujas pétalas da estrela vermelha começaram a cair.

Liubliana e Zagreb, foram as primeiras a nos dizerem adeus, em 1991, em que eslovenos e croatas estavam em festa por realizarem as primeiras eleições presidenciais para suas novas repúblicas independentes. Como se não fosse o bastante, logo em seguida, a festa estava em Escópia (Skopje), Os macedônios seguiram o exemplo croata-esloveno e assim, mais uma pétala se foi. Eu assisti tu se destruir de fora, para dentro. Foi definitivamente, a coisa mais terrível que já pude testemunhar.

Eu notava diariamente como estavas sofrendo por causa dos impactos. E quando não achávamos que fosse piorar, os horrores da já intitulada guerra civil, chegou às margens do rio Miljacka e banhou os jardins de Sarajevo com sangue de pelo menos 250 mil vítimas. Não sei onde que tudo desandou, criança. Mas, depois do massacre causado pelo cerco na Bósnia-Herzegovina, tudo o que podíamos ver, não passavam o que nossos olhos nos mostravam, pois já não tínhamos mais, como processar tais eventos.

Nossas noites ao redor da fogueira em Jahorina, Jugoslávia, não eram mais as mesmas, você estava visivelmente fraca e abalada. Esta última, foi com certeza a pétala mais dolorida que caíste de ti. Eu a vi, quando chorava suas lágrimas de sangue pelos inocentes mortos no confronto. Até que, da linda flor jugoslava, só lhe restava mais uma ponta, e seu caule rachado. E então, ao pensar nisso, você me perguntou: “ Será este meu fim? ”

Sérvia E Montenegro, como era chamada depois de Sarajevo seguir em frente, seu nome, Jugoslávia, já estava se perdendo aos poucos na escuridão, e isso lhe deixava cada vez mais fraca e debilitada, de uma forma tão drástica que nenhuma vitamina no mundo conseguiria resolver. Acho que dessa vez, era nosso fim. Mas, ficarei ao teu lado, pelo menos, em teu leito de morte. Que, estava cada vez mais próximo, principalmente quando Podgorica nos deixou.

Montenegro, de uma forma pacífica, teve sua independência de ti Jugoslávia, por meio da palavra do povo que se pode ter certeza que você, Jugoslávia, havia entrado em estado terminal. Em seguida, com dois dias, Belgrado, Disse que havia se tornado a capital da Sérvia, e deixaria de ser a tua capital. Assim, seu caule caiu. E oficialmente, foi declarado seu fim. Sem suas pétalas, e com o caule repartido entre Sérvia e Kosovo, eu a vi morrendo sem piedade, da forma mais triste possível. Por meio da dor do ódio.

Ainda hoje, existem pessoas que lhe admiram, nacionalistas, que fizeram o que puderam para te manter viva, e que hoje, ainda está lá, vivendo nos corações dessas pessoas, e na memória de muitas outras. Espero que tenhamos outras chances de nos encontrar pelo mundo a fora. Deixarei aqui, a minha rosa branca, como símbolo de paz e de recomeço. Este foi um obstáculo que não pudemos passar juntos, mas levarei o que aprendi com você, e ensinarei a outras pessoas, assim, daremos significado ao teu nome.


07 Iyar, 5774 | 07 Maio, 2014

* Carlos Eduardo Faria é formado em Segurança Pública é acadêmico de Direito e fundador da empresa WebDesk

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