Direito de expressão e charlatanismo

Para dizer o menos, foi inoportuna a nota divulgada pelo Centro de Comunicação Social do Exército, a propósito de matéria publicada no semanário Época. Assinado pelo jornalista Luiz Fernando Vianna, o texto faz críticas ao General-Ministro Eduardo Pazuello e traz no título expressão considerada ofensiva por altas patentes militares: Na pandemia, Exército volta a matar brasileiros. A manifestação do Centro, determinada pelo Comandante da Arma, foi dirigida à jornalista Ana Clara Costa, editora-chefe do periódico, e exige retratação, sem o que revista será tida como cúmplice do que as autoridades consideram ofensa à instituição militar. A carta do CIEX lembra a participação do Exército na Segunda Guerra, onde combateu os que atentam contra a própria liberdade de imprensa, um dos esteios da democracia. Uma só palavra sobre a tentativa de impedir os jornalistas de obter informações, como se tornou hábito do General-Ministro Pazuello, não é encontrada na carta. Vários órgãos de comunicação social, os media trazem a palavra indignada do General-ex-Ministro Santos Cruz, neste caso contestando declaração presidencial a respeito do poder supremo das forças armadas, acentuando tratar-se de mais uma tentativa de enganar a população e arrastar as forças armadas para o Centro de discussões políticas. Admita-se, para argumentar, haver algum exagero na manchete impressa na revista Época. Vá-se além, para entender a necessidade sentida pelo Comandante do Exército, em dar alguma satisfação aos seus comandados. Nada disso, porém, anula fatos e declarações que igualmente deveriam preocupar a caserna. Mencionar a presença de um General da ativa em um governo que todo dia atenta não apenas contra a liberdade de expressão, bastaria para mostrar inoportuno o pronunciamento aqui comentado. Nesse sentido as palavras do ex-auxiliar do Presidente da República contrastam com o que diz a nota do Centro de Comunicação Social e revelam, mais que simpatia, a concordância da comunidade insatisfeita, com a conduta reiterada de seu camarada posto à frente do Ministério da Saúde. Nem concluíra este comentário, tomo conhecimento da determinação aos oficiais-médicos da Aeronáutica para prescreverem o kit consagrado pelo charlatanismo. Retaliações estariam atingindo os profissionais resistentes à cumplicidade criminosa, com a transferência de seus locais de trabalho ou outras medidas administrativas de caráter punitivo. Passo, agora, a esperar que o Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, ou órgão que a ele equivalha, emita comunicado em que fique clara a discordância com prática tipificada pela lei penal. Basta de charlatães! À sociedade brasileira, como aos cidadãos de outras nações não escapará a percepção de que os militares brasileiros na reserva servem mais à pátria do que antes.

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