Direita, volver! Meia-volta, volver!


Somente agora os comentaristas políticos autorizados – e os que buscam sê-lo – dão-se conta dos males causados pelo voluntarismo, menos que pela vontade do Presidente Jair Bolsonaro. Como ele, jamais uma pessoa investida dos poderes que quase 40% dos eleitores lhe concederam disseminou imagem tão desfavorável da política nacional.

Não há quase um só dia em que o Presidente deixe de recuar de decisões que afetam não apenas seus filhos numerados, mas toda a nação, beirando os 210 milhões de pessoas. Nem são apenas os vizinhos e círculos adjacentes ao poder os prejudicados.

As mais recentes manifestações do ex-capitão põem a nu, mais que sua escassa percepção da importância do cargo que ocupa, certa confusão entre vontade e voluntarismo. Se a primeira tem a ver com a própria atividade política, o outro não é mais que o resultado da incompreensão da ética e da razão, relativamente à posição ocupada.

Desde cedo, entendo o espaço político como aquele onde as vontades individuais se expressam e predomina a decisão baseada no resultado da vontade majoritária. Para isso se construiu a democracia, cuja realização também depende do respeito às minorias. Não houvesse outra razão (e as há em quantidade!), porque a minoria de hoje terá sempre a probabilidade de ser maioria amanhã.

A obediência a essas restrições impostas pelo sistema democrático, portanto, é dever ético e moral, político sobretudo.

Já o voluntarismo corresponde ao sacrifício da razão e dos valores, em benefício de profundo isolamento da realidade e dos sonhos e vontades dos demais indivíduos. Os autoritários, neste caso, trazem consigo muito desse ingrediente malsão.

Nada tenho contra a opção do Presidente Bolsonaro pela direita. É um direito que lhe assiste, e nenhum que se diga democrático pode negá-lo. Ainda que a direita raramente admita a democracia. Falta-lhe espaço para avançar, sempre que vige o sistema tão bem definido por Churchill. Que ele encare a sociedade com o desprezo que seus sucessivos recuos revelam, no entanto, é inadmissível. Tenhamos votado ou não no Presidente, seja ele quem for, a nenhum cidadão engrandecem ou agradam as oscilações de humor do governante. Em especial quando tais variações têm a ver com sua própria vida – ou morte, em muitos casos.

Porque, na melhor das hipóteses, os recuos podem significar a prevalência das más companhias em torno do Presidente. Ignorante de muitos dos deveres, aspectos e problemas envolvidos em sua decisão, como ele mesmo faz questão de proclamar, o mínimo que se pode esperar é a audiência de algum dos seus auxiliares. Quem os escolhe, desta vez – isso também tem sido reiteradamente afirmado – é o Presidente, sem a influência dos segmentos sociais que dizem ter nele o líder inconteste e venerado.

É certo, porém, que a vontade coletiva raramente contempla o voluntarismo do governante. Se este jamais experimentou posição semelhante, da qual emanam decisões fundamentais para a vida de toda uma nação, mais ainda deve ser rejeitado movimento que se torna usual: direita volver, meia-volta volver!

O Planalto não é um quartel general, mas um local em que a Política tem uma de suas mais influentes sedes. A não ser que Bolsonaro e seus quase 60 milhões de eleitores odeiem a democracia.

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