Dignidade não se vende

A carta aberta enviada pelos cientistas admitidos na Ordem do Mérito Científico, devolvendo o grau recebido, revela que nem a força avassaladora do mercado consegue fazer de tudo e de todos a mercadoria desejada. Votos, vacinas, máscaras, medicamentos, sentenças judiciais, mandatos e muito mais podem ser comprados, porque sempre haverá quem os deseje vender. Comprar, muito mais. Para quem não sabe quanto é mais tranquila e feliz a vida dos que cultuam a dignidade e se entregam apenas ao fogo fátuo que satisfaz às almas pequenas, a percepção é diferente. Até mesmo o autoelogio se presta, nestes casos, a suprir a vaidade dos que não encontram quem lhes destaque - porque inexistentes - eventuais qualidades de que seriam possuidores, sem jamais as terem revelado. A esses, não resta se não autoproclamarem-se merecedores de homenagens pelos outros recusadas. Quando, despudorada e asquerosamente, pretendem incluir-se no rol dos beneméritos, não merecem resposta diferente da que deram 21 cientistas brasileiros, cuja dignidade não é medida pela conta bancária. Basta a esses a contribuição dada à resolução dos problemas com que se hão os seus concidadãos. Produtores de ciência, cuja dignidade tem resistido à agressão dos seus perseguidores inspirados na mais abjeta ignorância não admitem em meio a mais de 608 mil cadáveres, ver-se sujeitos ao constrangimento a que reagem. Longe de assemelhar-se a tantas outras manifestações de puro, simples e miserável corporativismo, a carta aberta dos cientistas deixa clara a opção pela austeridade, pela Ciência e pela Vida, com as quais se têm comprometido. A fonte da homenagem diz muito, pelo menos para o que a recebe.

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