Dicas

O brasileiro só fecha a porta depois de assaltado. Essa é a expressão com que a sabedoria do povo ilustra a indiferença com que muitos encaram os riscos a que todos estamos sujeitos, não fosse a advertência de Guimarães Rosa. Pela boca de Riobaldo, o genial romancista e diplomata traduzia quão arriscado é viver. Mesmo quando nos pensamos distantes dos sertões (de sabedoria e decência, sobretudo) e poucas são as veredas discerníveis, esperamos por milagres difíceis de acontecer. Daí a recorrência a balões de ensaio, raramente em proveito da sociedade. Os confeccionadores desses balões bem calculados aproveitam-se, portanto, da indiferença, algumas vezes vestida com os trajes da cumplicidade, para testar nossa índole e nosso grau de tolerância. É isso o que representa recomendação emitida pelo Ministério da Educação, coagindo as Universidades Federais e impedindo-as de exercer direitos protegidos pela Constituição. Mesmo se - e quando - o próprio Supremo tribunal Federal já se manifestou em relação à autonomia universitária. Agora, pelo menos a Universidade Federal de Goiás foi ameaçada de punição, na ocorrência de manifestação que tente ao menos discutir atos oficiais, como se sabe, lesivos à democracia, aos direitos dos cidadãos - enfim, ao próprio Estado Democrático de Direito. Certo que esse atentado à democracia e a uma de suas mais destacadas evidências - o respeito à instituição universitária e à sua necessária autonomia - não é inédito. A rigor, representa mais uma de quantas agressões vêm sendo cometidas contra os que divergem da necropolítica posta em vigor e responsável por quase 250 mil mortes. Ainda nesta tarde, a Câmara dos Deputados dirá de seu desejo de depurar ou não aquela casa, cuja classificação como Baixa originariamente tinha a ver com a comparação ao Senado, considerado o ponto Alto do Parlamento. Coisas do passado, entendamos! Esperar que o pior aconteça não nos dispensa de enxergar as pedras que vão sendo postas no tabuleiro. Difícil imaginar que, ao final do jogo, caiam o rei e a rainha. Peões e bispos estão mais próximos de ser derrotados, não a cavalhada que dispara para ocupar todas as torres.

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