Deus sem máscara


Quando Manaus avança para as primeiras posições na corrida macabra da covid-19, vai-se desmanchando no ar tudo que tem justificado as mais atrozes e perversas práticas. O fanatismo nutrido pelo ódio, o preconceito, a ganância e a agressão aos mais elementares valores da humanidade impõe-se sobre tudo o mais. Já não basta aos que traficam nome de um deus irreconhecível. É preciso avançar, porque neste como em todo negócio que assegura lucro a cadeia produtiva não pode sofrer interrupções. A paralisação das atividades de estabelecimentos que arrecadam contribuições sob o pretexto de cultuar um deus vestido de usura não pode ocorrer. A prática fundada na coação psicológica, sobretudo da porção menos esclarecida da população, precisa ser reativada. Mesmo que para isso a vida dos incautos venha a ser sacrificada. Desgovernados por uma figura que se diria grotesca, não fossem ostensivos o ódio, o ressentimento, a perversidade, ainda temos que engolir o culto a um deus distante do amor. Pior, um deus cujo nome é invocado para promover a morte, não a vida. Por isso, não é a mesa onde se celebra a comunhão de bons sentimentos, de alegria – da vida, enfim -, que orna tais agências. Se o móvel das condutas desvia-se de tudo quanto se possa chamar sagrado, o balcão constitui a peça principal do mobiliário da ignóbil fé. Para que falar amorosamente e fazer da palavra o pavimento que leva aos caminhos do amor? Funciona com maior eficiência usar um deus ameaçador, punitivo, hostil à vida e advogado do enriquecimento material de uns poucos, aqueles que, tal peões de fazenda, não titubeiam no uso do laço, dos arreios e do fogo que a ferros marca. Mais que a pele, a mente e a vida de cada rês.

Mesmo na tragédia, o bem se insinua. Não o bem que recheia bolsos e contas bancárias. Sem ser o único, mesmo nos piores e mais trágicos momentos, a humanidade pode tirar vantagens. Não aquelas que inspiram, motivam, estimulam os falsos pregadores. Por obra destes percebe-se tirada a máscara do espúrio deus ao qual dirigem sua hipocrisia e sua maldade vertidas em odiosa prece. A volta das assembleias, se a hora é de recolher-se à casa, quer dizer que só nos falsificados templos esse deus maligno será encontrado. Até eu, agnóstico faz tempo, pensava que Deus, qualquer deus, estaria dentro dos que fingem nele acreditar! A realidade, todavia, mostra quanto de ingenuidade ainda guardo dentro de mim.

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