Deus, pátria e família - onde, mesmo?

O uso das palavras é livre. Elaborar lemas que proclamam os propósitos dos que os produzem, portanto, é exercício absolutamente indiferente à paz social. À vida com o ela é. Outra - e contrária - coisa é colocar em prática o que as palavras deveriam sugerir. Tanto quanto os registros históricos permitem ver, há poucos vocábulos usados tão distantes da ação que pretextam orientar, quanto a palavra deus. Ponho a letra minúscula, porque os que recebem tal nome servem aos mais diversos e contraditórios gostos e propósitos. Uns vivem e enriquecem à sombra da proteção do substantivo, ainda que sua própria substância se encaminhe por estradas que Deus (aqui, sim, cabe a maiúscula, se é que me entendem, agnóstico confesso) desaprovaria. Há mesmo os que, o coronavírus matando tantos, abrem seus templos para extorquir o pouco que ainda podem ter os de seu rebanho. Já nem perco tempo com os que, terço à mão enquanto dedilham suas contas, entregam a mente à urdidura de explorar os semelhantes. Quando ocorre de dispensarem essa condição aos outros humanos(?). Não sei de que pátria falam os seguidores do lema: se do lugar em que vieram ao mundo e nele se fizeram gente(?) ou se no lugar em que nasceram aqueles a quem devem obediência voluntária. E acabam confundindo bandeiras. Não para fazê-las única, a simbolizar a fraternidade sobre a Terra. Algo que guarda coerência com a ideia que têm dos outros substantivos. Curtos de inteligência e visão, realmente não poderiam considerar-se irmãos de todos os seres humanos que com eles não partilham o mesmo sangue. Os outros, enfim - aqueles que devem morrer para que o amor à família triunfe. Amor baseado no ódio; projeto de morte mais que de vida. Só por serem os outros, afirma-se não terem família. Não precisam de empregos. Tanto se lhes dá se esses outros são explorados, violentados, reduzidos em sua dignidade. Deus acima de todos, abençoando o amor e a submissão à pátria alheia, tudo em nome da famiglia. Fosse eu um energúmeno e não estivesse tão afastado de meus ancestrais biológicos, lhes daria uma banana. Não é o caso.

3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Como faria Rondon ?

Dê-se o nome que se quiser dar, não muda a natureza do crime de que estão ameaçados grupos indígenas do interior do Amazonas. O propósito de exterminá-los está em todos os órgãos dos media, elucidativ

Frustrações democráticas

Na marcha batida em direção ao passado, sendo buscada a ordem contra os mais fracos e o progresso andando para trás, tenta-se configurar o Brasil como uma pátria armada. Ponham-se armas nas mãos de to

A nova política

Admita-se o voto em alguém absolutamente despreparado para exercer o cargo a que aspira. Afinal, a todos deve ser dada a oportunidade de buscar o que lhe pareça melhor, até mesmo do ponto de vista mer