Deus e o diabo na terra da covid-19

Em nenhum outro momento a História do Brasil mostrou a importância do conhecimento para a resolução dos problemas com que se há a sociedade humana. A pandemia que só no Brasil aproxima-se de ter matado mais de 650 mil pessoas pôs em evidência as carências que marcam profundamente o cotidiano dos brasileiros. A despeito de sermos exemplo para outros países, pelo uso das vacinas que sucessivas campanhas provaram à saciedade, sofremos efeitos evitados em outras nações, mundo afora. Tal situação deixou à mostra a mais trágica convergência. Ao fenômeno natural responsável pelo surgimento do vírus e sua chegada entre nós, somou-se percepção no mínimo desviada dos que governam o País. Enquanto nas unidades de saúde, desde postos de pronto atendimento até hospitais de alguma complexidade, os profissionais da área punham sua vida em risco, o desdouro das autoridades agravava a conjuntura já demasiado grave experimentada. Muitos desses dedicados profissionais deram sua vida, e não apenas metaforicamente, no afã de fazer sobreviverem os infectados sob sua assistência. Pior, dos responsáveis legais pelo combate à pandemia foi reiterada e marcante a ausência, quando não a ação agressiva e hostil. Mesmo quando isso configurou o mais puro e ultrapassado charlatanismo. Dos que deveriam apresentar-se como defensores da vida dos seus concidadãos, o que se observou foi o empenho em aumentar os riscos a que se vinham submetendo sobretudo os segmentos mais carentes da população. Foi como se Malthus estivesse inspirando os governantes, não pelo que analisou, mas pelo que os néscios veem nele o causador. Encarar a morte – de todos – como algo natural não chega a ser inadmissível, ainda mais quando vida-e-morte são íntimas e próximas quanto à condição humana. Uma não (permitam-me a licença) vive sem a outra. Acumpliciar-se com os fatores que levam à morte, contudo, não cabe na admissibilidade referida, se não que constitui revelação de maus sentimentos, exatamente aqueles que só causam danos à sociedade humana e põem em dúvida a condição a que Hannah Arendt se referiu. Ademais, a justa apreciação positiva do Sistema Único de Saúde, com destaque para o Programa Nacional de Imunização, não só pelos brasileiros, no mínimo induziria o governante, mais mal-intencionado seja ele, a prestigiar os órgãos e profissionais que os integram. Não foi o caso, e o número de mortos e as formas como seu número se foi multiplicando dão a exata medida do desrespeito e do desdouro devotado à humanidade. Algumas vezes, pretextando obediência a um deus desprovido de qualquer condição sequer humana. Divina, nem pensar!...

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