Deus e diabos

Aos que se acostumaram a acender velas para deuses e diabos, desde que isso os torne mais ricos, aconselho ler um dos editoriais da Folha de São Paulo de sábado, 13 de março último. Lá fica exposta a motivação que não é só daquele jornal, mas pode ser atribuída à maioria dos meios de comunicação de massa. Empenhados no que Lucius Sêneca chamaria má guerra, usam faca de mais que um gume, podendo ser dois ou maior o número de fios que cortam. Tão bem informados, tão perspicazes na observação dos fatos, tão apegados à verdade como se pretendem, aqui e acolá escorregam na própria gosma que envolve seus interesses. Repetem-se manifestações bem redigidas contra a política necrófila do governo federal, tanto quanto são reproduzidas críticas às medidas econômicas ou projetos do governo relacionados às pretendidas reformas. Neste caso, não pelo conteúdo, mas pelo que consideram lentidão na tramitação. Todos fingem ignorar que uma coisa - o fastio e a omissão no combate à pandemia - e o desmonte do Estado, das políticas sociais favoráveis à maioria da população, do sistema de proteção social (previdência, saúde, educação, Ciência, cidadania etc.) são irmãos xifópagos. Se a um escriba deste remoto território incrustado no alto do mapa nacional o fenômeno não passa despercebido, como esperar que não chegue ao conhecimento dos profissionais que se pensam donos da verdade do mundo? Sequer se dão conta de que o rei um dia se vê desnudado. A isso leva a curiosidade tão humana de que nos sabemos todos detentores.

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