Deu no que deu – e dá.


Repercute nas redes artigo publicado por um ex-dirigente da Globo, tentando atrair o Partido dos Trabalhadores para o seu lado. Uma espécie de convite ao alinhamento do partido fundado por Luís Inácio Lula da Silva aos interesses da ainda poderosa organização de comunicação. Muitos dos militantes ou simpatizantes do PT começam a manifestar-se, em geral irados e contrários a qualquer novo acordo com a proposta. Há desde os que lembram o papel desempenhado pela organização da família Marinho na deposição de Dilma Rousseff e na demonização do partido, que muitos ainda consideram de esquerda. Não faltam os denunciantes do enfraquecimento do sistema Globo, diante da conduta hostil e antirrepublicana de Jair Bolsonaro. Há certo ciúme, em algumas das manifestações. Ditadas, sobretudo, pela preferência dada pelo Presidente a concorrentes da rede até pouco tempo considerada monopólio da comunicação no Brasil. Não vi, ainda, qualquer referência ao fato de ser a rede Globo um dos mais bem-sucedidos filhotes da ditadura, em cujo seio foi acalentado e em cujas tetas se alimentou. Falta, ainda, quem diga vir cabendo a Jair Messias Bolsonaro a tarefa que Leonel Brizola não conseguiu levar a termo. Líder de uma cadeia da legalidade, ficaria mal na biografia do engenheiro gaúcho cercear, fosse por que meio fosse, a livre circulação das ideias e opiniões, ainda que injustas, contra ele. Os tempos são outros, e por isso vêm o arrependimento e o desejo de encontrar quem defenda a Globo contra os novos inimigos.

Desfruto de invejável isenção. Primeiro, pela negativa de que o PT seja um partido de esquerda. O fanatismo de uns, a indiferença de outros e a generosidade de terceiros é a base que sustenta esse mito – o Partido dos Trabalhadores como pertencendo ao pensamento da esquerda. Tem concorrido para isso o abandono de questões relacionadas à trajetória da legenda, inclusive certas relações pouco esclarecidas com autoridades do poder. Na ditadura, convém lembrar. Fanáticos e indiferentes, cada qual a seu modo, concorreram para disseminar a hipótese que os fatos pouco a pouco vão desmentindo.

O terceiro grupo é constituído dos que, com fundadas razões, veem Lula como um ser humano melhor que a maioria dos seus concorrentes, opositores, inimigos e, mesmo, companheiros. As habilidades políticas, juntadas à lucidez de suas análises e ao sofrimento que injustamente lhe foi imposto são o combustível dos bons sentimentos desse grupo. Mas não servem à convicção de que pensa como uma pessoa de esquerda. As políticas compensatórias postas em prática no seu governo, por inconsistentes, dão concretude à dissolução pelo ar de tudo quanto é sólido. Não havia solidez nas consideradas conquistas, como a realidade o vem revelando. Populista seria melhor chamar a Lula. Esquerdista, só por excesso de generosidade.

Em segundo lugar, pouco a pouco aprendi serem piores (ponham pior nisso!) que o cidadão Luís Inácio Lula da Silva todos os outros que contra ele se puseram, até destruir sua candidatura à Presidência, em 2018. Também se prestou, e continua prestando, a evidenciar a ação criminosa contra ele praticada, tudo quanto se vem sabendo sobre a organização orientada pelo FBI e comandada por Moro e Dalagnoll. Sem contar os outros, instalados mesmo em gabinetes importantes do Poder, em Brasília ou fora de lá.

Por último, ainda não venci – quem sabe um dia isso ocorrerá – o sentimento de traição que me amargura, pela frustração do sonho de viver num país mais justo. Só Lula teria condições de fazê-lo. Só ele chegou ao poder animado pela vontade dos que sonhavam o mesmo sonho. Na hora de cumprir o que para nós, em especial os não-petistas, representava uma vitória da esperança sobre o medo, ele tergiversou. E deu curso, como Presidente, a um dos mais pobres e execráveis preceitos divulgados por FHC: a política é a arte do possível.

Crente em que sonhar com o possível não é sonhar, tenho mil razões para rejeitar a condição de esquerdista a Luís Inácio Lula da Silva. Sem que ele perca minha admiração como homem político e lúcido analista. Os males de que tem sido acusado, e não vejo em nada diferente dos que praticam seus acusadores, para mim são menores do que ter-se deslumbrado com a lábia dos que servem a todos os governos, de esquerda ou de direita, de democratas ou ditadores. E deu no que deu.

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