Desumana e inoportuna

Seria justa a preocupação de boa parte do empresariado brasileiro, não estivéssemos diante de uma tragédia sem precedentes na história recente, do País e do mundo. Os avanços tecnológicos, as novas formas de produção, a crescente conscientização sobre o cotidiano de povos geograficamente distantes, resultado dos novos meios de comunicação - nada disso foi capaz de superar o surgimento de um vírus cujas características ainda estão por conhecermos suficientemente. Só isso permitiria maior dose de tranquilidade e esperança aos povos, estejam onde estiverem. Alguns dos instrumentos de que se poderia valer a espécie humana correspondem ao progresso nos meios de comunicação. Qual o quê! Com frequência maior que a tolerável, a aproximação entre seres humanos (?) distanciados por milhares de milhas acabou despertando em muitos deles sentimentos que talvez já nem os chimpanzés ostentam. São eles, porém, os que em muitos pontos do Planeta dispõem dos meios financeiros e políticos que tornam letais a ação dos meios de comunicação. As fake-news são as mais flagrantes revelações desse fenômeno.

É até possível imaginar que, não fossem elas, talvez não se tivesse chegado sequer à pandemia que aflige o Mundo. O uso intensivo e extensivo das comunicações foi mola propulsora do processo social experimentado mundo afora. Através dele, estabeleceu-se um estilo de vida que faz questão de negar o direito de viver à maioria dos habitantes do Planeta. A ganância dia-a-dia aprofundada resultou em extrema desigualdade, da qual a maior vítima é exatamente a porção majoritária, à qual a outra porção recusa dar a oportunidade de também viver. Enquanto uns realmente vivem - os acumuladores de riquezas -, condenam os outros à sobrevivência em suas mais rudimentares condições.

Preocupar-se prioritariamente com a economia, correndo os riscos já evidenciados pelo coronavírus coloca questão em patamar contraditório ao grau de civilização reivindicado pela sociedade humana: a guerra entre a vida e a riqueza material. A Economia, desejem ou não os econometristas, é ciência humana, diretamente ligada às condições de vida de cada indivíduo e da sociedade que ele, bem o mal, construiu desde que passou a andar sobre as duas patas traseiras.

Justo que os empresários apresentem suas reivindicações. Legítimo que reclamem audiência às suas reiteradas queixas. Não há como esquecer, entretanto, a absoluta ignomínia representada pela imposição de novos riscos sacrifícios àqueles que sempre suportaram sobre os ombros o peso de toda crise.

Repito quase-mantra, convencido de que nosso fim, com o vírus ou com a falência generalizada dos órgãos, será o mesmo. Os que fugirmos à ação do coronavírus um dia defrontaremos o momento final. Com a probabilidade zero de levar conosco tanto bem acumulado. Sem ter feito o bem que imortaliza, porque deixa exemplo positivamente memorável. Impossível ser feliz, cercados por infelicidade generalizada - eis o mantra.

Não me parece hora, ainda, de mencionar problemas econômicos, quando tantos morrem e são expostos à morte. Saber por que chegamos à desigualdade - esse vírus que convive conosco há séculos - entreteria melhor os que estão humanamente preocupados com a crise. Concorrer para exorcizar esse fantasma perseguidor seria o passo imediato.

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