Despropósito

Faz poucos dias, apontei neste espaço os riscos corridos pelo novo Presidente da OAB nacional, na gestão correspondente ao período 2022-2024. Nosso conterrâneo José Alberto Ribeiro Simonetti assumiu seu novo posto com o respaldo de 26 das 27 seccionais da entidade. Nos dois textos, destaquei o ambiente social em meio ao qual o jovem (43 anos) e experimentado (sua presença prolongada em órgãos da OAB o atesta) advogado amazonense inicia sua administração. Também mostrei o êxito alcançado por outro Presidente, amazonense como Simonetti, durante período igualmente conturbado de nossa História. Bernardo Cabral destacou-se, sobretudo, pela sensibilidade política sempre atenta ao prestígio que a OAB granjeou no seio da sociedade. Isso, mais que qualquer outro fator, pôs em relevo a entidade e a fez tornar-se voz e ação influentes nos destinos do País. Daí ser com muita justiça creditado a ela papel proeminente na redemocratização. Inevitável colocá-la no mesmo degrau em que se assentou e reconheceu o prestígio da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB e da ABI - Associação Brasileira de Imprensa. As seccionais da OAB, ontem como hoje, souberam ao longo de sua trajetória, dar o necessário apoio às meritórias iniciativas da direção nacional, a despeito de eventuais divergências, nenhuma delas capaz de anular a imagem criada na memória da sociedade brasileira. Por isso, o anúncio de que a OAB-AM inclina-se por substituir o argumento pela arma representa desafio adicional à recém-empossada Presidência que cabe ao nosso conterrâneo Simonetti conduzir. Nem se lembre quanto a pretensão tem de elitista e corporativa. Nem quão comprometedora da própria formação construída nos cursos de Direito, pelo abandono do argumento, subjugado a lógica muito próxima da que anima setores absolutamente leigos da sociedade. Ao invés de pleitear a extensão até os profissionais a ela filiados de privilégio hoje desfrutado por outros agentes dos processos judiciais, conduta mais respeitável seria exigir a extinção desse privilégio aos que hoje dele desfrutam. Afinal, o que parece pretender a OAB-AM é o reconhecimento de que os advogados são pessoas acima de todas as demais, razão pela qual a igualdade constitucionalmente consagrada parece-lhes deva ser rompida. É certo que a própria aceitação de que os profissionais saido dos cursos de Direito são mais que operadores tem muito a ver com a despropositada reivindicação. Pode até ser que ela decorra de alguma satisfação devida pela atual direção da seccional amazonense, para acalmar ânimos que lhe parecem hostis. Oxalá se trate apenas disso! Se o propósito malsão, correspondente a lógica miliciana, obtiver êxito, teremos a própria instituição fortalecendo os que combatem o Estado Democrático de Direito. E, por incrível que aparente ser, quase nada restará daquela respeitável OAB que esteve na linha de frente, na criação da Petrobrás e da Companhia Siderúrgica Nacional, no apoio aos Aliados na Segunda Grande Guerra e, mais recentemente. na redemocratização do País. O despropósito confirmando ter o Eixo vencido a guerra.


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