Desespero compreensível

Por mais condenáveis que sejam, as reações mais recentes do Presidente da República têm fundadas e graves razões. No momento em que se avolumam as evidências dos males que sua ação ou omissão têm causado à população, os institutos de pesquisa concorrem para exasperá-lo. O depoimento dos poucos convocados pela CPI do Senado a esta altura já forneceram material suficiente para causar-lhe intranquilidade. Se os trabalhos fossem encerrados na próxima segunda-feira, a colheita teria sido farta e comprometedora. Menos pelo depoimento do ex-Ministro Luiz Henrique Mandetta, de alguma forma inspirado e movido por certa dose de ressentimento. Também não exclusivamente pelo que disseram o Presidente da ANVISA, almirante Barra Torres, o ex-Secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten e o atual Ministro Marcelo Queiroga. Também os esclarecimentos prestados pelo Diretor da Pfizer, Carlos Murillo, sozinhos ou juntados ao que os depoentes que o antecederam disseram, se não era pouco, não dispensava outras contribuições. É nesta categoria que se situa o silêncio esperado do general-ex-sinistro Eduardo Pazuello. A meu juízo, o STF concederá o habeas corpus, garantia do silêncio que o general-intendente pretende manter. Ninguém é obrigado, antes, todos somos dispensados (salvo se Sérgio Moro for o acusador e julgador) de produzir provas auto-incriminatórias. Assim tem admitido a jurisprudência dos tribunais brasileiros. A mesma que consagra outro costume, ignorado por muitos como uma das fontes do Direito. Quem cala, consente. Simples assim, como disse o próprio general, diante do ex-capitão a quem presta continência. Se para o STF a questão não tem grande complexidade, para o ex-sinistro da Saúde afigura-se uma sinuca de bico. Se falar diante dos senadores, é quase certo que agravará a situação do uma vez chefe, sempre chefe. Aí dificilmente fugirá das consequências legais que à CPI cabe impor. Se, porém, mantiver-se mudo, evitará as penas adicionais, que o quase-ex-amigo e chefe imporá por ele mesmo. Mais que a maioria dos brasileiros, Pazuello sabe como agem os justiceiros. Seu desespero é apenas diferente do que passa um pai vendo-se e vendo seus filhos ao desabrigo das leis penais. Ao contrário, sujeitos a elas. Ambos, porém, têm muita probabilidade de sentar em bancos diferentes dos que mobilam os palácios.

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