Desencanto e tristeza

Observadores da política destacaram o clima social em que se realiza o pleito deste ano. Talvez outros pontos sejam acrescentados às análises, até consumar-se o segundo turno. Por enquanto, a constatação, por mais óbvia que seja, não nos dispensa de refletir sobre o fenômeno e o desenho que ele traça como promessa. Ninguém esperaria o ambiente festivo a que nos vínhamos acostumando, desde a Constituição de 1946. Nem interesse mencionar aqui o interregno 1964-1983. A intensa participação popular e a alegria circunstantes geravam a sensação de uma enorme festa de carnaval. Tornou-se comum dizer, então, que as eleições no Brasil eram verdadeira festa da democracia. Seria descabida situação semelhante, depois de perdermos quase 170 mil pessoas por uma pandemia que aos ignorantes, insensatos e insensíveis não é mais que uma gripezinha. E, mais grave ainda, permanece como espada de Dâmocles sempre pronta a arrancar-nos a cabeça. Compreenda-se com a serenidade necessária mas não se sabe até que ponto possível, a falta de alegria. Não é esse o fator mais preocupante. Preocupa-nos, porém, a generalizada indiferença do eleitorado, como se houvesse alguém poupado do bom ou mau exercício dos mandatos em disputa. A participação de grande número (talvez a maioria) dos candidatos é vista como a busca de um emprego, tão difícil tem sido encontrar oportunidade de trabalho honesto e produtivo nestes tempos trevosos. Não é só isso, contudo, o gerador do desencanto, nem o promotor da tristeza característicos do momento. O cenário se agravou com a substituição da indispensável avaliação da trajetória dos candidatos pelas mentiras por eles mesmos produzidas e disseminadas fartamente, com o uso criminoso dos diferentes meios de comunicação. Neste particular aspecto, o avanço tecnológico tem sido passaporte para seu antípoda, a barbárie. O eleitor, assim, vai à seção eleitoral não por ver no ato de votar um meio de influenciar – por menos que seja – as decisões sobre o destino de cada um deles, ao mesmo tempo de toda a coletividade. Talvez nenhum perceba quanto essa indiferença concorre para ampliar e aprofundar o problema. Colocando-se entre a distância e a mitificação-mistificação de personalidades doentias renuncia à vontade própria, não fosse ela em toda hipótese a essência do que se chama Política. Se aos animais não cabe se não orientar-se pelos instintos, aos ditos animais inteligentes é oferecida a possibilidade de satisfazer seus desejos, aspirações e, digamo-lo sem rodeios e temores – seus sonhos. Aí, então, será maior a probabilidade de fazer do momento principal do processo político, uma verdadeira festa. A festa da democracia!

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