Demarcatória

Tento, desde logo, demarcar os limites dentro dos quais devem ser interpretados os comentários que se seguirão. Referem-se eles a uma das questões que envolvem o (des)governo e a comunidade indígena do País, e seus respectivos apoiadores. O primeiro desses marcos de que minhas observações são o conteúdo corresponde à confissão de que ainda não tenho opinião ou preferência formada sobre a solução do problema que acirra a hostilidade governamental aos interesses indígenas. Sem desconsiderar o genocídio característico da trajetória das relações entre os remanescentes das populações encontradas no vasto território hispano-lusitano e sucessivos governos, desde Mem de Sá, Duarte da Costa e Thomé de Souza. Então, os habitantes surpreendidos com a chegada das naus cabralinas eram donos e senhores das terras d’aquém-mar. Detinham-lhes a posse e a propriedade. Espalhados e isolados entre si, aos grupos sociais existentes cabia decidir sobre a forma de uso de um bem farto e fértil de que a natureza os havia feito senhores. A História, que em sua fase mais recente (pos-iluminismo, em especial)não tem sido mais que a História do Desenvolvimento do Capitalismo, encarregou-se de reconfigurar o mundo, e a globalização que os interesses em jogo impuseram reconfigura continuamente. O propósito de eliminar qualquer resquício da civilização pre-invasão lusitana não bastou, conduzindo à permanência de um conflito que perdura e mostra sinais de claro agravamento. Não seria diferente, diante da crescente voracidade do capital, cuja volúpia e cuja ferocidade não encontram obstáculo, mesmo diante da suposta crença em um ser supremo criador de tudo e de todos. Tal alegação, digamo-lo sem rodeios, tem sido reiteradamente usada para justificar o extermínio de povos inteiros, ou sua pura e simples subjugação. Importa mais destitui-los da propriedade e da posse, algo que poderíamos conceituar, pelo menos no caso deles, como direitos naturais. As velozes conquistas da Ciência e a complexidade imposta pelo modelo de desenvolvimento dos meios de produção geraram, igualmente, viés prejudicial àquelas populações. Há ainda quem negue conteúdo humano aos indígenas. Mata-los todos, por gripe, fogo, epidemias, bala ou veneno é coisa de somenos. Perdem-se milhares de vidas, ganham-se dividendos. Lucros versus vidas humanas – simples assim, como expresso na mais abjeta e recorrente subserviência. Outro ponto que limita o alcance deste comentário é a dúvida sobre que outro critério levaria à solução da divergência, que não o caráter temporal. O período pre-colombiano sendo a data mais remota, a Constituição de 1988 na outra ponta. Ou, quem sabe, a celebração do Tratado de Tordesilhas!? Nenhuma dúvida me assalta, porém, sobre a absoluta necessidade de serem respeitadas as populações indígenas, todas tendo asseguradas as condições materiais de sobrevivência digna, observadas as práticas que, só elas, podem impedir a devastação e a exploração predatória tão ao gosto de nosso capitalismo antagônico à natureza. A uns parecerá exagero mencionar, a outros nem tanto, que um discípulo de Caxias, chamado O Pacificador (!), mesmo detendo armas como todos os seus camaradas, dizia, a propósito dos índios: morrer, se for necessário; matar, nunca! Ha, no entanto, quem confesse nada ter aprendido na caserna, a não ser matar. Isso tem muito a ver com minhas dúvidas.

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