De quem tirar

Coube ao Presidente Jair Bolsonaro, se não dizer, pelo menos insinuar qual seria a mais fácil, rápida e justa solução para os problemas financeiros do País. Não é algo que se escore em ideia, projeto ou proposta daquele que, tal um Posto Ypiranga, ao candidato parecia o mágico de Oz sem os...reais necessários. Ao contrário, o que o mago de Chicago não deseja, embora enxergue, desmente o seu discurso e revela a perversidade que o inspira e recheia. É do Presidente, não de qualquer representante das oposições - se ainda podemos usar este vocábulo, aparentemente proscrito dos dicionários e manuais políticos, tanto quanto dos manuais de conduta ou programas partidários, a declaração. No processo de fritura a que o Presidente submete Guedes, uma quase indagação aparenta desafio: tirar do pobre para dar ao paupérrimo é o dilema a que Jair Bolsonaro se refere, quanto ao financiamento do programa Renda Brasil. E aí se mostra clara a opção do Presidente, sobre todas as outras: importa a ele mais que tudo, encontrar o meio mais eficaz de garantir sua permanência no poder. Afinal, as eleições de 2022 chegaram mais cedo e é preciso dispor de instrumentos que desfaçam a má imagem que o vinha acompanhando até recentemente. Não é a dor dos que perderam alguma ou algumas, dentre as mais de 120 mil vítimas da covid-19, que incomoda o Presidente, mas como obter a maioria dos votos do sobreviventes. A frieza com que Bolsonaro lembrou ser a morte o fim de todos nós, com ou sem covid-19, fê-lo perder pontos, Viu-se, então, em circunstância talvez inesperada, jamais impossível de remover. E trata de ampliar o rol de decisões ao gosto do populismo tão atual como o foi no passado. Tudo, em nome da modernidade. No caso específico do financiamento do Renda Brasil, raciocínio simples é capaz de descobrir o que as poucas (como sempre) palavras do ex-capitão dizem sem dizê-lo claramente. Insinuam, melhor dizer. Primeiro, porque ele tem razão: tirar dos pobres para dar aos paupérrimos só aumentará o número destes. Sem diminuir a pobreza, nem ao menos anunciar a redução mínima que seja da desigualdade. Há, no entanto, os que podem ser o alvo do que o não-dito atinge - os tradicionalmente contemplados com a riqueza gerada pelos outros, produzidos pelos que ficam com o naco do leão. Às vezes o populismo acaba gerando soluções das quais o populista nem se dera conta. Se este for o caminho, pode até faltar dinheiro para a campanha da reeleição, mas não faltarão votos.

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