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De lição em lição

Marcelo Seráfico*


Acabo de ler o artigo do Roberto Amaral sobre Lula e o Brasil. Eu faria uma única consideração contextual para situar a proximidade entre Getúlio e Lula. Creio haver paralelos importantes entre o primeiro governo de Getúlio, em 1930, e o terceiro de Lula, a partir de 2023. Cito um que me parece decisivo: nesses dois períodos tratava-se de reformar o país, isto é, de dotá-lo de instituições que assegurassem alguma mudança na ordem tradicional da economia e da política.

Em seu governo posterior, democrático, Getúlio lutou para reconquistar o que havia sido destruído pelo sabujismo nacional. Lula faz o mesmo agora, mas com uma nuance: se na década de 1950 Bretton Woods, a Constituição que normatizou a Guerra Fria, fortalecia a polarização política em escala transnacional, em 2023 não há norma, ou melhor, a norma é a guerra com exércitos, milícias, mercenários, mídia e finanças. Vivemos tempos de guerra civil mundial com amplo domínio de "forças armadas" privadas ou privatizadas.

Getúlio não avançou no projeto de modernização do país, pois precisou conciliar para governar. JK avançou, conciliando com o capital internacional, sem o qual não avançaria. Lula, em seus dois primeiros mandatos, tampouco avançou estruturalmente. Também conciliou. E agora?

Os discursos feitos na França mostram que ele tem perfeita consciência do que está em jogo. A questão é: como será possível jogar esse jogo sem conciliar?

Ou, sejamos condescendentes, sem conciliar tanto?

Aí vem a política, a capacidade de liderança, de organização e de decisão.

Lula lidera quem? Que grupos estão ou conseguem, rapidamente, se organizar para defender a democratização do país? Que decisões são necessárias para tanto?

Essas não são questões "brasileiras". O mundo vive em ruínas. Lula, como líder, é aquele que se pôs sobre os entulhos e, olhando para o horizonte, rabiscou um futuro possível. Mas como alcançá-lo?

Esse é o desafio. Por certo, não será obra do governo dele. Mas é importante que haja um governante no mundo com essa visão. Caberá à sociedade civil mundial enfrentar as dificuldades da organização e da tomada de decisão. Só assim outros estadistas aprenderão as lições que Lula, tendo aprendido, hoje dá.

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*Marcelo Seráfico é sociólogo e professor do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFAM/ICHSF. O autor comenta artigo recente, publicado por Roberto Amaral, sobre o talento político de Lula e os percalços por ele enfrentados em seu terceiro mandato presidencial.

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